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Ter swag para não ser um nigga

2020.11.10 23:37 pintazpt Ter swag para não ser um nigga

'Os pais precisam de dicionário para os compreender. As modas e as novas palavras dos adolescentes.
A mãe nem sempre percebe o que ela diz e não se trata de nenhum problema na fala. Quando quer dizer meu/minha, Micaela usa a palavra madjé, quando vai para algum lado diz zimbora e para se referir a ela própria ou a alguém que tenha estilo e atitude usa a palavra swag. O dicionário alternativo da adolescente de 15 anos, residente na Azambuja, aluna do 8º ano e uma de quatro irmãs, não é exclusivo da própria.
O ‘vírus' das expressões que escapam aos adultos ataca todos os adolescentes de uma forma geral, em muito impulsionado pelas redes sociais, onde quem quer ser popular "tem de estar para ser visto". A Língua Portuguesa define a adolescência como a "Quadra da vida entre os primeiros assomos da puberdade e o termo do completo desenvolvimento do corpo". Mas não é por saber isso que se torna mais fácil compreender a fase que cada vez começa mais cedo (aos dez, onze anos) e - dizem os especialistas - termina cada vez mais tarde.
REPETE LÁ OUTRA VEZ?
Quando se enerva, Catarina, uma algarvia de 15 anos, diz a palavra Móh. "Usa-se quando ‘tás irritada e vem depois do que tu queres dizer, para dar mais sentido. Mas só os que utilizam é que sabem, não dá para explicar" - avisou logo a jornalista, não fosse esta achar que descodificar os adolescentes fosse tarefa fácil. Descobrimo-la no grupo do Facebook ‘Adolescentes mais que perfeitos', onde diariamente são publicadas fotografias de adolescentes com swag. Catarina já enviou fotografias suas para lá. Depois de selecionadas pelos administradores, Daniel e André, pede-se aos restantes elementos do grupo (cerca de 11 mil) que as avaliem: 20 ‘Gostos' = Feio; 40 ‘Gostos' = Mais ou menos; 60 ‘Gostos' = Bonito; 80 ‘Gostos' = Lindo e 100 ‘Gostos' = Perfeito.
Há algumas variações na escala, mas é também esta aprovação virtual que embala o ego, aquilo que procuram os jovens que se inscrevem nos grupos ‘Adolescentes mais bonitos' e ‘Adolescentes com Swag'. Zé Pedro, de Coimbra, 16 anos, é o administrador deste último grupo. "Eu e dois amigos decidimos criar a página porque a palavra swag evidencia um estilo que todos admiramos ou que gostávamos de ser como as pessoas que o têm, tipo o Justin Bieber, o Drake, o Wiz Khalifa. "Publicamos fotos que nos enviam por mensagem ou que encontramos no Facebook de adolescentes que aparentam ter swag e eles sentem-se bem em ter lá a sua foto, partilham-na com os amigos para aumentar os ‘gostos' ou simplesmente para mostrar aos amigos que se encontram numa página destas", explica. Quase dez mil pessoas pertencem a este grupo na rede social. Zé Pedro, o administrador, tem mais de 22 mil seguidores na sua própria página, onde vai promovendo também outros amigos. "Pedem-me para partilhar o Facebook deles para aumentarem os likes (gostos) nas fotos ou para terem mais pedidos de amizade".
"Quanto mais amigos e mais gostos, mais populares somos", sublinha Catarina, cuja foto de perfil na rede social é em pose, de biquíni, na praia. "Para uma rapariga ter ‘swag' ajuda ser bonita e vestir bem, além de saber posar para as fotos, mas para um rapaz convém usar peças específicas de roupa", adianta Micaela. "É preciso vestir as marcas que estão na moda, como os bonés New Yankees Cap, camisolas Obey, Wad, entre outras", enumeram ainda os administradores do grupo ‘Adolescentes mais que perfeitos'.
A ORIGEM DO SWAG
"A palavra swag pode ter dois sentidos: a existência de estilo e a história dos prisioneiros homossexuais na cadeia, mas para nós, adolescentes, o que interessa é a primeira. Se bem que muitos criticam os swaggers por quererem ser mais do que os outros ou simplesmente por terem inveja de eles poderem usar esse tipo de roupas".
Na realidade, aquilo que diz Zé Pedro não anda muito longe da verdade. A palavra ‘swag' terá vários significados, sendo que um dos mais conhecidos era como sigla para a expressão Secretly we are gay (Somos homossexuais em segredo), que terá começado a ser usada na década de sessenta. Ao que parece a palavra começou a popularizar-se no rap americano, através de Jay-Z, o primeiro a utilizá-la neste sentido, em 2001, mas só passou para a internet e para a linguagem adolescente uma década mais tarde. Outra palavra da qual os adolescentes (no caso, as adolescentes) se apropriaram para um novo significado foi a não muito simpática bitch (cabra).
"Fazem com o significado de mostrarem carinho pela outra", explica Catarina. "Não tem o intuito de ser um palavrão, mas sim uma frase típica de jovens, tal como foi em tempos o pah no fim das frases", reforça Alexandre, 17 anos, um dos administradores da página ‘Adolescentes mais bonitos'. Na verdade, Bitch usado como sigla é o maior elogio que uma amiga pode dar a outra [Beautiful, Intelligent, Talented, Charming and Hot] - Bonita, Inteligente, Talentosa, Charmosa e Sexy. O uso, quer da palavra swag quer da palavra bitch não é um exclusivo dos adolescentes portugueses. Lá fora muda a grafia: é betch e segundo o Urban Dictionary "faz-te sentir cool".
Nos Estados Unidos este fenómeno da utilização da palavra betch é protagonizado por jovens entre os 18 e os 24 anos, universitárias e com grande poder de compra. O ‘New York Times' fez recentemente um artigo sobre este novo ‘dicionário' e enumerou as regras mais importantes da vida das betches: não ser uma miúda fácil, não ser pobre, não ser gorda'. As pri-meiras a registar o fenómeno foram três betches assumidas: Jordana Abraham, Samantha Fishbein e Allen Kuperman que lançaram o blogue ‘Betches love this', onde escrevem sobre este ‘novo grupo social' de forma satírica. Esta nova ‘tribo' também já inspirou Sofia Coppola no filme ‘The Blind Ring', onde a personagem de Emma Watson é considerada uma betch que rouba fortunas.
Também na ‘onda' das palavras com significado diferente para uns e para outros está o LOL, que surgiu com o advento da internet: "Antes, escrever ou dizer LOL servia para mostrar a alguém que nos estávamos a rir [a sigla em inglês significa Laughing Out Loud - Rir muito alto], hoje em dia é mais para mandar alguém dar uma volta", contextualiza Sara, de 17 anos e natural de Braga.
"Outra palavra que usamos muito é YOLO (You only live once - Só se vive uma vez)". Catarina lembra outra palavra muito utilizada pelos adolescentes de hoje: moss, que significa qualquer coisa como: por que razão é que estás sempre a estudatrabalhar? Tens de relaxar. A palavra social não foi apropriada indevidamente pelos adolescentes, todavia é cada vez mais usada. "Uma pessoa é social se tiver muitos likes, amigos e seguidores, e ser adorado por algumas raparigas, é a mesma coisa que ser popular. Isso faz com que no dia seguinte já sejamos rotulados como o ‘social', mas esta palavra cria muitas rivalidades entre alguns rapazes", acrescenta Zé Pedro, dos ‘Adolescentes mais bonitos'.
A MODA DO REINO UNIDO
André, Tico e Hugo têm 12 anos e vivem na mesma rua. "Ser adolescente é ser diferente do que éramos antes, que só queríamos brinquedos e jogar à bola. Agora também nos preocupamos com a imagem e estamos muito tempo no Facebook, porque é importante para pôr fotos, por vezes para arranjar namoradas", explica André. Os três amigos têm dois canais no YouTube , onde fazem vídeos de jogos. "Somos quase nerds nisso", diz Hugo, o mais calado dos três. André não concorda. "Eu acho que tenho swag, porque tenho um cap, tenho uns ténis assim - aponta para os pés - e também sei falar de forma quase africana, tipo crioulo, que agora está na moda. Na nossa escola quem tem swag é bem-vindo", explica o adolescente do Barreiro. "Também utilizamos bué o inglês, como o OMG (Oh my God! - Oh, meu Deus!) e dizemos kkkkk para mostrar que nos estamos a rir. Ter ‘swag' é também usar tshirts com paisagens de sítios paradisíacos como as nossas", sublinha André, apontando para si e para Tico. A dele diz Florida, a do amigo tem escrito Bali. A de Hugo não se enquadra nos padrões. "Os meus pais nem sempre me compram roupa dessa", encolhe os ombros.
"Além disso - das t-shirts, dos calções, dos bonés e dos ténis - os mais sociais da nossa escola querem todos ir para o Reino Unido, pois o Reino Unido tem swag", lembra André. Micaela confirma. Ainda não há muitos dias a mãe apareceu-lhe em casa com as sonhadas leggings com a bandeira do Reino Unido de padrão. "Eu andava sempre a dizer que tinham swag e a pedir umas e ela fez-me a surpresa. Fiquei mesmo contente porque preocupo-me com a minha imagem, com o vestir bem; hoje isso é importante para uma pessoa ser popular na escola". Daniela já tem 18 anos, porém o grupo de amigos ainda usa palavras e expressões que nem todos conseguem descodificar. Além do swag e do OMG, é frequente ouvi-los a dizer ‘cheio de cenário' (a ‘pinta' de antigamente), ‘nossa, que biolência' (uma expressão ‘roubada' a Luciana Abreu) e stilo.
Joviana Benedito, professora de Românicas reformada, debruçou-se sobre a linguagem usada pelos mais jovens na internet na altura em que ainda pouco se sabia sobre o assunto e as abreviaturas pareciam uma outra língua a quem não estivesse familiarizado com os chats. Publicou três livros sobre o tema, depois de meses a pôr dúvidas aos mais novos com quem se cruzava nos chats. "No início, aquilo parecia-me uma reunião de palavras, juntavam umas coisas com as outras para criar novas palavras e até tinha de estar a adivinhar o que é que aquilo significava. O que achei mais interessante foi a criatividade que gerou, era uma espécie de cantar ao desafio: eu invento uma palavra, tu inventas outra". Hoje, aos 74 anos está retirada da matéria. "Sei que há novas palavras e expressões, porque ouço as minhas netas a falar, mas muita coisa mudou nestes dez anos", justifica.
Já sobre a existência ou não de diferentes tribos adolescentes, os entrevistados divergem. "Há os betinhos (aqueles que não fazem mal a ninguém); os agarrados: que estão sempre com um cigarro na boca e que só veem o vício; os swaguetas: pensam que têm estilo próprio, todavia têm um estilo igual aos outros; os swaggers: que têm um estilo próprio; os niggas: pensam que fazem mal a todos, mas não valem nada", enumera Catarina. Daniela explica de forma diferente: "existe o grupo dos mais populares, que vão a festas e conhecem metade da escola e que têm bastantes amigos no Facebook, os grupinhos que vivem das aparências, e os que ficam mais reservados, pois não se deixam arrastar pelas influências dos outros grupos referidos".
OS SWAGGERS INTERNACIONAIS QUE ELES ADMIRAM
1- Justin Bieber: Selena Gomez, namorada do cantor, diz que é impossível passarem despercebidos: "Ele gosta de ser cool. Não esconde o swag. No caso de Bieber o swag é o estilo, o boné, as marcas que usa, a atitude "de quem sabe o que quer", dizem os fãs. É um dos grandes ícones do swag adolescente.
2- Demi Lovato tem um site na internet que se chama: demilovatohasswag.tumblr.com. "Tem um estilo próprio e fica sempre bem nas fotografias de pose."
3- Rihanna é uma das swaggers preferidas dos adolescentes. "É ousada nas roupas e muito bonita, nada lhe fica mal; a ousadia também ajuda".
4- Drake tem uma música com Wiz Khalifa em que se exalta precisamente ‘Swag So Official'. "Tem roupas mesmo fixes".
DICIONÁRIO ADOLESCENTE-PORTUGUÊS
Swag: ter estilo, atitude. Para isso implica (para os rapazes) usar roupas das marcas da moda e (para as raparigas) vestir bem, serem bonitas e saberem posar para as fotos que depois postam no Facebook.
BITCH: Beautiful, Intelligent, Talented, Charming and Hot (Bonita, Inteligente, Talentosa, Charmosa e Sexy).
YOLO: You Only Live Once (Só se vive uma vez).
OMG: Oh my God! (Oh, meu Deus!).
WTF: What the Fuck? (Que m**** é esta?)
Móh: traduz irritação, no fim de uma frase.
Moss: relaxar. ‘Para quê estudar se podes estar na boa?'
Zimbora: vamos embora.
Madjé: meu/minha.
Social: ser popular, ter muitos amigos e ‘gostos' no Facebook.
Yah: sim.
Whatever: tanto faz.
Cheio de cenário: cheio de pinta
Primo/mano: amigo próximo.'
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2020.09.28 16:46 Vedovati_Pisos Top 10 maiores academias do mundo

As academias estão se tornando maiores e melhores com o passar do tempo.
A saúde e fitness são elementos importantes na vida das pessoas. E isto tem sido introduzido às pessoas desde os anos de escola primária, que é a principal razão de haver aulas regulares de educação física no ginásio, ao lado da matemática, ciências e língua.
Permanecer ativo e em forma após os anos de escola pode ser objetivo difícil de alcançar. Este é o motivo das academias terem importante papel na vida de todos. As melhores academias são aquelas que oferecem diferentes tipos de equipamento para ajudar a atingir metas de fitness individuais.
Os instrutores devem também estar disponíveis para ajudar no ensino e guiar os usuários. E quanto maior a academia, melhor a chance de que ofereça uma linha completa de equipamentos.
Nesta seleção estão destacadas as 10 maiores academias do mundo.
10° American Airlines Center, Dallas – 1.765 m²
Este espaço acarpetado é adjacente para o vestiário e quadra de prática do time de basquete Dallas Mavericks da NBA. É considerada a instalação de treino de muito valor em todos os esportes profissionais. Mark Cuban é conhecido por mimar seus jogadores, oferecendo a eles aparelhos novos, as toalhas mais macias e os treinadores mais avançados.
Ele certamente não economiza na academia do seu time, como o local abriga várias máquinas Hammer Strenght, racks de energia intrincados, bicicletas ergométricas, esteiras modernas, uma esteira subaquática, halteres e placas de choque.
9° Academia Bev Francis Powerhouse, Nova York – 2.787 m²
O renomado casal de fisiculturismo Bev Francis e Steve Weinberger administra esta academia. Ela foi criada em 1986 e desde então se tornou um dos espaços de treino premier do mundo. A academia apresenta uma sala de peso moderna, centro cardiovascular cheio, ringue de boxe, estúdio MMA, centro de grupo fitness.
8° Pro Gym Serge Moreau, Montreal – 6.503 m²
Esta academia apresenta muitos bancos, máquinas Smith, racks de energia, muitos pesos livres e equipamento cardio. E possui também um espaçoso vestiário, um salão e um snack bar. Esta academia também oferece salas especialmente dedicados para treinamento de boxe e kickboxing.
7° Tree House Athlectic Club, Utah – 6.689 m²
Afora de usuais pesos, máquinas e equipamento cardio, esta academia também possui 2 grandes piscinas e uma parede de escalada com uma altura de 30 pés. O local também oferece mais de 100 aulas fitness toda semana.
6° Quad’s Academia, Chicago – 7.989 m²
A academia traça suas raízes de uma academia de porão de propriedade de Dave de Young e Tom Milanovich. E foi originalmente concebida como um local onde amigos poderiam se reunir para levantar pesos. E evoluiu lentamente para uma academia de vitrine antes de finalmente se mudar para um local em Calumet em Illinois, com área de 7.989 m².
E localizada no sul de Chicago, eventualmente se tornou conhecida como Terra dos Gigantes. Em 1988, a academia expandiu para o norte de Chicago com um espaço medindo 40.000 square feet. Esta caracteriza 115 equipamentos cardio, 5 conjuntos completos de halteres, entre outros.
5° The Sports Club/LA, Los Angeles – 9.290 m²
The Sports Club/LA possui uma sala de musculação enorme com todo equipamento necessário. É mais que um clube de esporte, é uma academia de luxo, oferecendo estacionamento com manobrista, salão de beleza, dia de spa, vestiário espaçoso e executivo e serviços de lavanderia. Mark Wahlberg é conhecido a ser um visitante assíduo.
4° 24 Hour Fitness Ultra Sport, Califórnia – 9.300 m²
A academia possui instalações em todo os Estados Unidos, com mais de 400 academias abertas para seus membros. E o local oferece equipamentos cardio, pesos livres, clube infantil, quadra de basquete, piscina, área de bronzear, armários espaçosos, clube de squash, instalações de escalada, quadras de vôlei e áreas de massagem.
3° Nike World Headquarters, Oregon – 10.200 m²
Esta academia em Oregon tem um par de centros de esporte para seus funcionários e suas famílias. E possui pesos livres, equipamento cardio, paredes de escalada e piscina de 25 m. Ainda oferece avaliações livres fitness e aulas de grupo. Há também espaços para squash,basquete, vôlei de praia, tênis.
2° Academia Life Time Fitness, Oklahoma – 10.600 m²
A academia oferece 400 peças de equipamento de exercício, 2 piscinas, 2 quadras de basquete, espaços para ciclismo e salas para aulas de ioga e Pilates. Há também uma área de recreação para crianças, a incluir mini quadra de basquete.
1° Greenwood Athletic and Tennis Club, Colorado – 13.200 m²
Greenwood Athletic e Tennis Club é posição líder na seleção das 10 maiores academias do mundo, com totais 13.200 m² de área. O local oferece pesos livres e máquinas, bem como 2 piscinas, uma dúzia de quadras de tênis e 120 aulas fitness. Os clientes podem aproveitar aulas de aeróbica, boot camps, kick boxing, Pilates e ioga.
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2020.06.03 01:59 RafaelHonorato01 Questionamentos ao maior estudo de cloroquina

O que acham dos questionamentos que foram feitos ai maior artigo científico que analisou o uso de Cloroquina? Viram isso?
https://www.nexojornal.com.bexpresso/2020/06/01/Quais-os-questionamentos-ao-maior-estudo-realizado-sobre-a-cloroquina?utm_source=NexoNL&utm_medium=Email&utm_campaign=anexo

Quais os questionamentos ao maior estudo realizado sobre a cloroquina
Camilo Rocha01 de jun de 2020(atualizado 01/06/2020 às 20h26)
Carta assinada por 140 pesquisadores contesta metodologia e dados de levantamento com 96 mil pacientes de covid-19. Periódico faz correções, mas diz que elas não comprometem conclusões
FOTO: DIEGO VARA/REUTERS
AMOSTRAS DE DIFOSFATO DE CLOROQUINA DISTRIBUÍDAS PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE
O maior estudo já feito a respeito dos efeitos da cloroquina e da sua derivada hidroxicloroquina em pacientes com covid-19 está sendo contestado por especialistas em alguns de seus aspectos. Amplamente divulgado pela imprensa, o levantamento publicado em 22 de maio analisou dados de 96 mil doentes de vários países.

Do total, 14.888 pacientes haviam recebido algum tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina, sozinhas ou em combinação com outros remédios. Segundo o estudo, em todas as situações houve aumento no risco de morte e de arritmias cardíacas graves. A conclusão do trabalho foi de que a “segurança e benefícios” da cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina tiveram “avaliação ruim” quando usadas no tratamento da covid-19.

Encabeçado por Mandeep R. Mehra, do centro cardiovascular da Escola de Medicina de Harvard, a pesquisa foi publicada e revisada pela revista médica britânica The Lancet, referência mundial.

Na sexta-feira (29), 140 médicos e pesquisadores de diversos países (nenhum brasileiro) enviaram uma carta à Lancet na qual pedem transparência com relação à metodologia, aos dados e ao processo de revisão do estudo. “Os autores [do estudo] não aderiram a práticas que são padrão nas comunidades de aprendizado de máquina e estatística. Não divulgaram seu código ou dados”, afirmaram os cientistas. Os pesquisadores solicitaram ainda que o trabalho fosse validado por um comitê independente apontado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

A publicação da pesquisa motivou a OMS a suspender estudos clínicos com a hidroxicloroquina. A França alterou a recomendação para uso de hidroxicloroquina no tratamento com covid-19 e interrompeu testes após a divulgação do estudo. Outros países europeus também vetaram o uso do remédio.

Diversas pesquisas anteriores, realizadas com grupos menores de pacientes, já haviam apontado que o remédio não surtia efeito contra o novo coronavírus. Fabricada há mais de 80 anos, a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina são tradicionalmente receitadas a pacientes com malária, artrite reumatóide e lúpus.

ÍNDEXTudo sobre Coronavírus no Nexo
GRÁFICOQual o material mais eficaz para máscaras, segundo este estudo
EXPRESSOAté quando será necessário adotar o isolamento social?
O presidente Jair Bolsonaro e seu colega americano Donald Trump defenderam o uso da cloroquina como tratamento para covid-19 ao longo da pandemia. No Brasil, o remédio passou a ser recomendado pelo Ministério da Saúde para doentes em todos os estágios da covid-19, em 20 de maio. A medida é uma orientação, e a decisão final de receitar é dos médicos, com autorização do paciente.

No domingo (31), a Casa Branca comunicou que o governo americano mandou duas milhões de doses de hidroxicloroquina para o Brasil.

O que os cientistas apontam
A carta ao Lancet lista dez aspectos problemáticos da pesquisa. Abaixo estão alguns dos principais pontos:

Falta de informações a respeito dos hospitais que forneceram dados de pacientes usados no levantamento ou identificação dos países onde estão localizados. A base de dados pertence a uma empresa americana chamada Surgisphere, especializada em análise de dados de saúde, que negou acesso às informações solicitadas pelos pesquisadores, alegando questões contratuais com governos. O presidente da Surgisphere, cirurgião vascular Sapan Desai, é coautor do estudo.
Segundo os pesquisadores, dados sobre África contidos no estudo indicam que quase 25% de todos os casos de covid-19 e 40% de todas as mortes no continente ocorreram em hospitais associados ao Surgisphere, com sistemas eletrônicos sofisticados de coleta de dados e monitoramento de pacientes, o que segundo os pesquisadores não condiz com a realidade. “Tanto o número de casos e de mortes, e a coleta de dados em detalhes, parecem improváveis”, diz o texto da carta.
Dados relativos à Austrália não são compatíveis com relatórios das autoridades, e incluíam “mais mortes hospitalares do que haviam ocorrido em todo o país durante o período do estudo”. Também registravam muitos casos para apenas cinco hospitais. A Surgisphere explicou que, neste caso, houve um erro que classificou um hospital da Ásia como sendo australiano. Para os pesquisadores, isso indica a necessidade de revisão em todo o banco de dados.
Na visão dos cientistas, diversas características dos casos analisados (severidade da infecção, dose utilizada, efeitos temporais), chamados “fatores de confusão”, jargão da estatística para variáveis que podem levar a interpretações distorcidas, não foram considerados de forma adequada.
Um dos signatários da carta, James Watson, cientista sênior do Centro de Pesquisa de Medicina Tropical Mahidol Oxford, teve seus questionamentos a respeito da análise estatística do estudo reproduzidos em um blog da universidade de Columbia, nos EUA.

Segundo ele, o fato de o estudo registrar uma mortalidade de quase o dobro em pacientes que receberam cloroquina ou hidroxicloroquina em comparação aos que não receberam é algo inusitado. A proporção é muito maior do que a observada em estudos anteriores sobre o medicamento.

Watson também chama a atenção para o fato de o estudo ter apenas quatro autores, “o que é estranho para um estudo global em 96 mil pacientes”. Segundo o cientista, estudos com esse perfil na medicina em geral são desenvolvidos em grupos colaborativos, e podem chegar a ter entre 50 e 100 autores.

FOTO: DIEGO VARA/REUTERS

FUNCIONÁRIO DE HOSPITAL EM PORTO ALEGRE MOSTRA PÍLULA DE CLOROQUINA. MINISTÉRIO DA SAÚDE AMPLIOU USO DO REMÉDIO PARA CASOS LEVES
“Não estou acusando os autores/empresa de dados de qualquer coisa desonesta, mas como eles quase não dão detalhes sobre o estudo e ‘não podem compartilhar os dados’, é preciso analisar as coisas de uma perspectiva cética”, escreveu.

O tempo levado pelos pesquisadores para a conclusão do trabalho também foi considerado atípico. Em pouco mais de cinco semanas, os autores analisaram dados de dezenas de milhares de pacientes, escreveram o artigo e passaram pela revisão por pares da revista Lancet.

O que dizem os autores do estudo
“As análises foram realizadas com cuidado e as interpretações fornecidas foram avaliadas intencionalmente. Estudamos um grupo muito específico de pacientes hospitalizados com covid-19 e declaramos claramente que os resultados de nossas análises não devem ser interpretados para aqueles que ainda não desenvolveram a doença ou para aqueles que não foram hospitalizados”, afirmou Sapan Desai, presidente da Surgisphere e coautor do estudo publicado na Lancet. Ele ressaltou que as limitações de um “estudo observacional” foram destacadas e reafirmou a conclusão de que o uso da cloroquina fora do contexto de testes clínicos não era recomendável.

No sábado (30), a revista científica publicou duas correções ao estudo, mas afirmou que “não houve alterações nas conclusões do artigo”. Ao New York Times, uma representante da publicação disse que mais atualizações serão fornecidas conforme necessário. “O Lancet incentiva o debate científico e publicará as respostas ao estudo, juntamente com uma resposta dos autores, na revista no devido tempo”, afirmou.

Um representante do doutor Mandeep R. Mehra, professor de Harvard que encabeçou o artigo, declarou que os autores da pesquisa pediram uma revisão acadêmica independente e uma auditoria do estudo.

Método científico
Pesquisas científicas são apresentadas ao mundo por meio de artigos em publicações científicas. Antes de serem publicadas, esses artigos são revisados por pares, etapa na qual especialistas naquela determinada área verificam a solidez do estudo, dos experimentos, da metodologia e das conclusões obtidas.

No entanto, mesmo uma pesquisa revisada por pares continua aberta a discussões e contestações, em um processo completamente normal e esperado na esfera científica. Muita dela poderá ser provada simplesmente errada. A pesquisa revisada é “conhecimento provisório, talvez verdadeiro, talvez não”, definiu o estatístico da universidade de Columbia e analista de pesquisa Andrew Gelman, em um artigo sobre o estudo da Lancet.

Um movimento chamado Ciência Aberta defende uma prática científica que disponibiliza informações em rede, pela internet, com o objetivo de que estas sejam acessíveis a toda a comunidade, incluindo universidades, instituições financiadoras e outros pesquisadores.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.bexpresso/2020/06/01/Quais-os-questionamentos-ao-maior-estudo-realizado-sobre-a-cloroquina?utm_source=NexoNL&utm_medium=Email&utm_campaign=anexo
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2020.03.26 17:20 pajavu O que é o isolamento vertical?

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52043112
A notícia descreve essa teoria que é música para ouvido de alguns, que, inclusive, penso que poderia ser um ponto interessante para o Átila abordar.
TL;DR (em poucas palavras) - dois cientistas começam a contestar o poder de devastação do coronavírus. Para eles, a melhor estratégia, equilibrando combate ao vírus com menor consequência econômica, seria isolar os grupos de risco conhecidos - idosos e pessoas com doenças anteriores -, concentrando neles também os recursos de saúde, deixando o restante da população a mercê dos efeitos do vírus que, em geral, provocam infecções leves e autolimitadas. Com isso, a população adquire imunização de rebanho. Essa estratégia vem sendo duramente contestada criticada pela maioria da comunidade científica.

Ponho na íntegra.

O que é o isolamento vertical que Bolsonaro quer e por que especialistas temem que cause mais mortes?


Um grupo de cientistas tem desafiado a orientação majoritária entre os epidemiologistas e defendido que as medidas de distanciamento social da população contra o coronavírus sejam relaxadas e substituídas pelo isolamento de grupos específicos de pessoas, aqueles com maior risco de morrer ou desenvolver quadros graves: idosos, diabéticos, cardíacos e pessoas com algum comprometimento pulmonar.
Para esses epidemiologistas, os escassos dados disponíveis apontam que a doença não é tão devastadora para a população em geral e, por isso, seria possível contê-la sem enfrentar as massivas perdas econômicas que o atual modelo de contenção pode causar.
As conclusões são vistas com desconfiança e cautela no mundo médico, já que a falta de dados não permite conclusões tão generalizantes para a maior parte dos profissionais.
O risco, dizem os críticos, é que teorias como essa possam estar equivocadas e levar o mundo todo a um colapso completo de saúde.
A controversa estratégia é chamada de isolamento vertical e ganhou ao menos dois proeminentes adeptos nas últimas 48 horas: o presidente americano, Donald Trump, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.
Algo semelhante foi tentando no Reino Unido, que recuou do plano nesta semana, após indicativos de que seu sistema de saúde podia entrar em colapso, e determinou que seus cidadãos deveriam manter amplo isolamento social adotando o fechamento de escolas e comércios como tem sido a tônica das medidas ao redor do mundo.
Não está claro ainda se EUA ou Brasil vão adotar o isolamento vertical como arma central no combate à pandemia, mas os dois mandatários já se posicionaram publicamente a favor dessa linha de atuação.
Oito dias depois de decretar estado de emergência e recomendar que todos os americanos ficassem em casa, na segunda, dia 23, Trump afirmou que "os Estados Unidos estarão novamente abertos a negócios em breve. Muito em breve. Muito antes de três ou quatro meses que alguém sugeriu. Muito antes. Não podemos deixar que a cura seja pior que o próprio problema".
E reconheceu que contrariava os médicos que o assessoram nessa nova orientação. Segundo Trump, a sugestão desses profissionais da saúde seria "manter o país fechado por alguns anos". "Você não pode fazer isso com um país, especialmente a economia número 1 do mundo", afirmou.
Nesta terça, 24, em pronunciamento em rede nacional, Bolsonaro seguiu a mesma linha, criticou o confinamento por seus efeitos econômicos e na manhã da quarta, 25, disse que "a orientação vai ser o [isolamento] vertical daqui pra frente".
Nos Estados Unidos, a projeção é de que a economia encolha em até 24% no segundo trimestre. A taxa de desemprego voltaria ao patamar de 10%, como durante a crise de 2008.
No Brasil, a expectativa de crescimento do PIB foi zerada para o ano de 2020. Os cenários para número de desempregados oscilam de 20 milhões a 40 milhões, a depender do órgão responsável pelo cálculo.
Afinal, o que é confinamento vertical?
Um dos médicos a formularem esse método é David Katz, diretor do Centro de Pesquisa em Prevenção Yale-Griffin.
Em um artigo publicado no jornal The New York Times, Katz explica a estratégia com uma metáfora bélica. De acordo com o médico, em um momento de "guerra" contra o coronavírus, os governos podem optar por confrontos abertos, com seus resultados mortíferos e efeitos colaterais graves, ou adotar um ataque cirúrgico, com foco específico no ponto de maior perigo.
Para Katz, ordenar quarentena forçada em um país, com fechamento de comércios e escolas, e proibição de circulação de pessoas a menos que por motivos essenciais é o equivalente ao "confronto aberto bélico".
O ataque cirúrgico seria isolar os grupos de risco conhecidos - idosos e pessoas com doenças anteriores - concentrando neles também os recursos de saúde para tratamento e prevenção e deixando o restante da população a mercê dos efeitos do vírus que, em geral, provocam infecções leves e autolimitadas.
A argumentação de Katz se sustenta em números da epidemia obtidos na Coreia do Sul, onde o coronavírus a se espalhou e foi rapidamente contido graças a uma estratégia de testagem massiva da população e de rastreamento de pessoas que estariam potencialmente infectadas.
"Os dados da Coreia do Sul, os melhores a rastrear os efeitos do coronavírus até agora, indicam que 99% dos casos de doenças na população em geral são 'leves' e não necessitam de atendimento médico. A pequena porcentagem que necessita de intervenção hospitalar se concentra entre aqueles com 60 anos ou mais, e tanto mais quanto mais velhos forem os pacientes. Aqueles com mais de 70 anos têm 3 vezes mais chances de morte do que os com idades entre 60 e 69 anos, enquanto aqueles acima de 80 têm o dobro de risco de mortalidade em relação aos pacientes entre 70 e 79 anos", escreveu ele no Times.
No raciocínio teórico, ao deixar a maior parte da população fora do risco exposta ao patógeno, a sociedade desenvolveria a chamada "imunidade de rebanho" - um contingente populacional cada vez maior teria anticorpos para derrotar o vírus antes mesmo que ele se instalasse e pudesse se reproduzir e se espalhar, o que levaria ao fim da pandemia.
"Estou profundamente preocupado que as consequências sociais, econômicas e de saúde pública desse colapso quase total da vida normal - escolas e empresas fechadas, reuniões proibidas - sejam duradouras e calamitosas, possivelmente mais graves do que o número direto de vítimas do próprio vírus. O mercado de ações voltará com o tempo, mas muitas empresas nunca o farão. O desemprego, o empobrecimento e o desespero que provavelmente resultarão serão flagelos de saúde pública de primeira ordem", escreve Katz.
Os argumentos de Katz são compartilhados pelo médico epidemiologista John Ioannidis, codiretor do Centro de Inovação e Pesquisa da Universidade de Stanford.
Em um artigo para o site StatNews, ele afirma que as estatísticas até agora indicam uma mortalidade de 1% dos doentes por coronavírus.
"Se isso for verdade, confinar o mundo todo com um potencial gigantesco de consequências sociais e financeiras é irracional. É como um elefante sendo atacado por um gato doméstico que, para evitar o aborrecimento do gato, pula de um precipício e morre", escreveu.
Críticas da comunidade científica
A teoria de Katz e Ioannidis se tornou música para os ouvidos de equipes econômicas governamentais que tentam fechar as contas públicas em meio à perspectiva de recessão.
"Nenhuma sociedade pode proteger a saúde pública por muito tempo, às custas de sua saúde econômica. Mesmo os recursos dos EUA para combater uma praga viral não são ilimitados. A América precisa urgentemente de uma estratégia de pandemia mais econômica e socialmente sustentável que o atual confinamento", resumiu o editorial do jornal The Wall Street Journal, conhecido por expressar o pensamento da elite econômica americana, há uma semana.
No Brasil, as conclusões dos dois epidemiologistas ganharam adeptos na equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, em busca de uma saída mais suave para a crise da saúde pública.
O problema é que, por enquanto, o isolamento vertical é apenas uma hipótese. Katz e Ioannidis têm sido duramente criticados por, segundo seus pares, extrapolar inferências a partir de premissas pouco confiáveis.
De acordo com a última estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), seria necessário aumentar em ao menos 80 vezes o número de testes de laboratório para coronavírus ao redor do mundo para que fosse possível entender com precisão o alcance da pandemia e seu potencial de letalidade.
De acordo com Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, há ainda falta de máquinas para rodar os testes e até de cotonetes para coletá-los. O problema é generalizado e atinge mesmo países ricos, como os Estados Unidos.
Isso quer dizer que os dados disponíveis sobre a pandemia até agora são apenas uma peça do quebra-cabeças, incapaz de indicar o que seria sua imagem completa.
Ainda assim, o próprio Ioannidis reconhece que "no pior cenário, se o novo coronavírus infectar 60% da população global e 1% das pessoas infectadas morrerem, isso se traduzirá em mais de 40 milhões de mortes em todo o mundo, correspondendo à pandemia de influenza de 1918".
Mais mortes que o estimado
Mas há ainda controvérsia sobre a taxa de mortalidade da pandemia. Os dados da China, onde houve o primeiro epicentro da doença, e da Itália, o segundo foco global, colocam em xeque as conclusões obtidas a partir de dados da Coreia do Sul, onde a contaminação foi menor, mais controlada e contou com um sistema hospitalar em plenas condições de responder a todos os casos.
Na China, a taxa de doentes com covid-19 que morreram está em 4%. Entre os italianos infectados, o percentual de mortes ficou em 9,8%. Ambos são muito superiores ao 1% dos coreanos.
Se essa taxa prevalecer em outros países, as perdas de vidas humanas serão significativamente maiores do que Katz e Ioannidis estão estimando.
Para Harry Crane, professor de estatística da Universidade Rutgers, o erro de Katz e Ioannidis foi se deixar levar pelo desejo de negar uma situação que pode causar desespero.
"Sob grave incerteza, é instinto natural e bom senso esperar pelo melhor, mas se preparar para o pior", escreveu Crane, em resposta ao artigo de Ioannidis.
Isso porque a taxa de mortalidade não depende apenas dos quadros de saúde que o próprio vírus pode produzir, mas da capacidade de resposta das sociedades de tratar esses doentes.
Como isolar grandes grupos de risco?
Para piorar, a solução que ambos sugerem, confinar grupos de risco, parece impraticável na maior parte dos países. Primeiro porque os grupos de risco conhecidos até agora, como idosos, cardíacos e diabéticos são numerosos.
Nos EUA, os idosos são 15% da população. E 40% dos americanos com mais de 20 anos são obesos, condição que predispõe a diabetes e cardiopatias. No Brasil, 13,5% das pessoas têm mais de 60 anos e 20% são obesas.
Na prática, a medida sugerida pelos pesquisadores representaria isolar algo como 2 em cada 5 americanos ou 1 em cada 5 brasileiros. Para complicar, muitas pessoas nessas condições não moram sozinhas, o que tornaria ainda mais complexo mantê-las isoladas do risco de contrair o vírus.
Além disso, os grupos de risco podem não se restringir aos perfis conhecidos até agora. O próprio Katz admite o problema: "Certamente, embora a mortalidade seja altamente concentrada em alguns grupos, ela não para por aí. Existem histórias comoventes de infecção grave e morte por covid-19 em pessoas mais jovens, por razões que desconhecemos".
No entanto, se for descoberto que o ideal é isolar idosos e jovens, a proposta do isolamento vertical em quase nada difere do que está sendo feito no atual confinamento que Katz critica.
Adicionalmente, até chegar ao ponto em que existe a chamada "imunidade de rebanho", o desejado na teoria do isolamento vertical, os cientistas estimam que ao menos 3 em cada 5 pessoas da população de cada país precisariam ter sido contaminadas.
"Não há como garantir que apenas os jovens sejam infectados. Você precisa de 60% a 70% da população infectada e recuperada para ter uma chance de desenvolver imunidade ao rebanho, e não existe esse percentual de pessoas jovens e saudáveis nem Reino Unido nem em qualquer outro lugar. Além disso, muitos jovens têm casos graves da doença, sobrecarregando os sistemas de saúde e um número não tão pequeno deles morre", alertou Nassim Nicholas Taleb, professor de engenharia de risco da New York University, especialista nesse tipo de modelo, em um artigo no jornal britânico Guardian em que expõe as falhas na premissa do isolamento vertical que levaram o primeiro-ministro do país, Boris Johnson, a mudar de posição sobre o assunto.
A desmobilização que a teoria produz
Por fim, se a estratégica de isolamento vertical falhar, chega-se ao problema seguinte: o colapso do sistema de saúde, abarrotado de doentes e com falta de suplementos médicos e respiradores.
"Em situações 'normais', apenas um entre 5 pacientes em estado crítico morre, daí a taxa de mortalidade (mortes por total de infectados) de 0,9% na China, fora de Hubei (epicentro inicial da doença). Quando os hospitais estão congestionados e o acesso a unidades de terapia intensiva é racionado, 9 em cada 10 pacientes em estado crítico morrem (daí a taxa de mortalidade de 4,5% em Hubei)", afirma o economista italiano Luigi Zingales em um artigo publicado na página da escola de negócios da Universidade de Chicago.
Segundo Zingales, manter as pessoas em casa e apoiar a economia não é uma questão do que seria moralmente correto para os governos, mas do que seria economicamente mais vantajoso.
Ele examina o caso americano. A OMS estima que algo em torno de 200 milhões de pessoas serão infectadas pelo vírus nos Estados Unidos. Dessas, 5% chegarão a condições críticas - algo como 10 milhões de pessoas.
A Agência de Proteção Ambiental dos EUA estima que cada vida humana valha US$ 10 milhões para a economia. Esse valor é um terço menor em pessoas com mais de 65 anos - em torno US$7 milhões.
De acordo com o raciocínio de Zingales, se os EUA enfrentarem o caos e perderem 9 em cada 10 desses casos críticos, ou seja, 9 milhões de pessoas, ele terá perdido financeiramente mais de US$ 60 trilhões - mais de duas vezes o PIB anual do país.
Logo, segundo ele, faria sentido aprovar o pacote de US$ 2 trilhões de estímulo à economia e arcar com o custo da paralisação da atividade econômica por quase quatro meses, já que o risco de tentar impedir essa queda poderia levar a uma catástrofe de custo exponencialmente maior.
Para os críticos do isolamento vertical, ao propalar uma possível solução que pode se provar falsa, esses pesquisadores dariam à pandemia condição de se espraiar.
Epidemias funcionam em cadeia, com a contaminação espalhando em cascata por diferentes e mais numerosos grupos, de modo que, se não foi interrompida cedo, pode ser impossível contê-la mais tarde.
"A mensagem de Ioannidis nos coloca em risco de atrasar a resposta crítica e dessensibilizar o público para os riscos reais que enfrentamos. Para um problema dinâmico e complexo, como o coronavírus, sempre queremos mais informação, mas temos que lidar com o que temos. Este não é um projeto de pesquisa acadêmica. É vida real, em tempo real. Diante da grave incerteza, não podemos adiar a ação aguardando mais evidências ou eliminar riscos catastróficos, alegando que é irracional tomar medidas defensivas drásticas" afirma Crane.
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2019.09.23 15:24 timoteomg A hora de um Green New Deal brasileiro?

Texto do site JOTA.
Link: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-hora-de-um-green-new-deal-brasileiro-22092019

Às vésperas da 74ª Assembleia Geral da ONU, em cuja edição estão previstas discussões acaloradas, inclusive sendo esperada uma “Global Climate Strike” ou Greve Geral do Clima, um dos temas a serem tratados será a proposta da deputada democrata americana Alexandria Ocasio-Cortez e do senador Edward John Markey, apresentada em fevereiro deste ano à Câmara dos Representantes e ao Senado norte-americanos1, trata-se do chamado “Green New Deal”.
Além de ser objeto do recém-lançado livro da autora best-seller canadense Naomi KleinOn Fire: The (Burning) Case for Green New Deal2 -, a expressão Green New Deal foi utilizada primeiramente em 2007 pelo jornalista do New York Times Thomas Loren Friedman, inclusive Barack Obama tentou emplacá-lo, ao seu modo, a partir de subsídios em política energética em 2008. Contudo, sem sucesso.
É com vistas à década de 1930, em que o presidente Franklin Delano Roosevelt implementou nos Estados Unidos uma reativação estrutural da economia norte-americana pós-crise de 1929, entre o governo e a agricultura, indústria e transporte, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, que uma aliança do Partido Democrata propôs e vem mantendo tratativas com o Parlamento americano, a fim de um novo pacto político-econômico para a atualidade.
Um novo movimento político abrangente, na busca por melhor estruturar a política, a economia e o direito frente ao desafio das mudanças climáticas, este que se soma ao horizonte rumoroso de mais uma crise econômica mundial3, cujo efeito é a preocupante escalada da desigualdade.
O movimento possui muitas semelhanças úteis à situação da política e da economia brasileiras. Dispensável enumerar os recentes motivos socioambientais para a sua aplicação em terras brasileiras, haja vista a incontestável crise na Amazônia, cujas repercussões não cessam4, com direito à capa de alerta na The Economist, maior revista de economia do planeta.
Ousadas e, ao menos, coerentes com os fatos, as propostas trazem pontos que podem ser objeto de reflexões, não só para a política ambiental brasileira, mas também para a própria crise econômica em que permanece o Brasil, agravada pelos recentes números de uma verdadeira “escalada da desigualdade”, divulgados pela FGV5.
O Green New Deal norte-americano agora é intermediado pelo Senador e candidato às eleições presidenciais americanas de 2020, Bernie Sanders, e fundamenta-se em relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e também em estudos6, os quais apontam que, só aos Estados Unidos, até o ano de 2100, a elevação do nível dos mares custará cerca de US$ 141 Bilhões.
Dentre as suas metas7, propõem-se:
Reconfiguração de objetivos econômicos, com a introdução governamental subsidiada de uma política de descarbonização da economia (redução de combustíveis fósseis e ampliação das energias limpas renováveis até 2030);
Implementação de transportes não poluentes, com investimentos em energia eólica, térmica e geotérmica;
Investimento e geração de emprego por meio de indústria sustentável (bioeconomia e energias limpas);
Novas leis para a mudança climática e empoderamento orçamentário às Agências de Proteção Ambiental;
Concertação das causas do descumprimento das metas do Acordo de Paris da ONU;
Incentivo à pesquisa de tecnologias verdes e sustentáveis (por meio de um Programa Nacional de Reciclagem, para eficiência energética e tecnologias para novas fontes de renda);
Subsídio e apoio à agricultura e ao agronegócio sustentável, para que protejam os ecossistemas essenciais (agroecologia em maior escala);
Regulação de atividades impactantes e que geram injustiças ambientais (criação de fundos para resiliência dos afetados pela crise climática);
Política severa de prevenção a desastres naturais;
Introdução de relatório anual do clima, para a valoração dos riscos ambientais nos investimentos públicos e privados e na bolsa de valores (fomento ao Compliance Ambiental);
Tributação em produtos com elevada pegada de carbono (com o incentivo aos baseados em matérias-primas sustentáveis e de energia limpa renovável);
Implementação e subsídios a cidades sustentáveis, com equidade de acesso a recursos naturais;
Cumprimento abrangente das normas e leis ambientais, com a responsabilização efetiva por danos ambientais e humanos.
Todas as aludidas metas, segundo a proposta, com custos subsidiados, aliados a retornos a médio e longo prazo.
Mesmo que arrepie muitos céticos públicos e privados, a ideia remete a uma indiscutível situação em que está o Brasil, que derrapa ainda em crescimento econômico tímido, com uma desigualdade socioeconômica recorde, condições que se juntam a uma crise ambiental retratada pelo mundo, marcada por desastres estruturais e humanos como em Mariana e Brumadinho.
Como visto, as possibilidades de um New Deal Verde para o Brasil passam indiscutivelmente por um movimento político, legislativo e jurídico amplo (não impossível) e que inclui a sociedade civil e todos os atores econômicos, por se tratar de um plano a estimular novo modo à economia brasileira, respeitando a biodiversidade e reduzindo os impactos que aceleram as mudanças climáticas, gerando novos modelos econômicos, sem dispensar o combate à desigualdade e às injustiças ambientais.
O momento de protagonismo por que passa o Congresso brasileiro poderá ser a oportunidade para discussão de um New Deal Verde, e a Constituição Federal de 1988, por seu art. 225, é dirigente nesse sentido, pois privilegia um desenvolvimento sustentável que considere presentes e futuras gerações, sem distanciar-se da ordem econômica de seu art. 170.
Em um país como o Brasil, de riqueza natural imensurável, de reservas significativas de fontes de energias renováveis e de um bioma Amazônico pungente, porém ilegalmente explorado, nada deveria impedir a introdução da séria ideia do New Deal Verde, pois são os seus objetivos especiais que estão na rota da crise brasileira, quais sejam: desigualdade e crises econômica e ambiental.
Emerge momento de reinvenção política, econômica e jurídica, do anseio por uma utopia política crítica e atenta ao rumo da humanidade e do planeta. Por que não a hora de um Green New Deal brasileiro?
——————————
1 “What Is the Green New Deal? A Climate Proposal, Explained”. Disponível em: https://www.nytimes.com/2019/02/21/climate/green-new-deal-questions-answers.html Acesso em 16/09/2019.
2 New York: Simon e Schuster, 2019.
3 “Temor de crise global derruba Bolsas, e BC vende reservas para frear o dólar”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.bmercado/2019/08/temor-de-crise-global-derruba-bolsas-e-bc-vende-reservas-para-frear-o-dolar.shtml Acesso em: 16/09/2019.
4 “Multinacionais já reagem contra queimadas na Amazônia”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.bmercado/2019/09/multinacionais-ja-reagem-contra-queimadas-na-amazonia.shtml Acesso em 16/09/2019.
5 “Alta da desigualdade chega a 17 trimestres consecutivos, aponta FGV social” Disponível em: https://cps.fgv.bdestaques/alta-da-desigualdade-chega-17-trimestres-consecutivos-aponta-fgv-social Acesso em 16/09/2019.
6 “FOURTH NATIONAL CLIMATE ASSESSMENT – Volume II: Impacts, Risks, and Adaptation in the United States – The National Climate Assessment (NCA) assesses the science of climate change and variability and its impacts across the United States, now and throughout this century”. Disponível em: https://nca2018.globalchange.gov/ Acesso em: 16/09/2019.
7 “The Green New Deal”. Disponível em: https://berniesanders.com/issues/the-green-new-deal/ Acesso em 16/09/2019.
BRUNO TEIXEIRA PEIXOTO – Advogado, Pós-graduando em Direito Ambiental e Urbanístico (Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina/CESUSC). Pesquisador membro do Harmony with Nature Knowledge Network Experts da ONU.
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2018.06.23 23:03 PKKittens Júri americano condena homem à pena de morte por ser gay

Título soa meio clickbait mas é uma situação difícil de explicar em uma frase. Explicando melhor:
O cara foi condenado de matar alguém. Ser punido por isso não é errado, obviamente. A questão é que haveria duas alternativas: ser preso ou ser condenado à morte (já que é de South Dakota, onde a pena de morte ainda existe).
Os jurados consideraram que, por ele ser gay, ele iria gostar de ir pra prisão cercado de homens, e que por isso a pena capital seria a única justa:
During deliberations, the jury had often discussed the fact that Mr. Rhines was gay and there was “a lot of disgust” about it, one juror recalled in an interview, according to the court petition. Another said that jurors knew he was gay and “thought that he shouldn’t be able to spend his life with men in prison.” A third recounted hearing that if the jury did not sentence Mr. Rhines to death, “if he’s gay, we’d be sending him where he wants to go.”
Além disso, a Suprema Corte decidiu que não pode impedir que o júri faça isso. Pra comparar, em um caso do ano passado no qual um dos jurados falou algo preconceituoso em relação a mexicanos (sendo que o réu era mexicano), a Suprema Corte decidiu quebrar o sigilo do júri por considerar que o preconceito do jurado interferia no direito de um julgamento justo. Nesse caso de homofobia (que aparentemente partiu de não só um, mas vários jurados), pelo visto não atrapalha...
Link do artigo original, em inglês, no New York Times.
Postando aqui porque é um caso super tenso e que só vi sendo comentado em um sub estrangeiro até agora.
Edit: deixando mais claro: o caso em si não é novo, o preso foi condenado em 1992, sendo que ele é um dos 3 únicos detentos no corredor da morte em South Dakota. O que é novo é a decisão (de 5 dias atrás) da Suprema Corte de manter o julgamento.
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2017.08.11 21:54 feedreddit Esfera de influência: como os libertários americanos estão reinventando a política latino-americana

Esfera de influência: como os libertários americanos estão reinventando a política latino-americana
by Lee Fang via The Intercept
URL: http://ift.tt/2uO9Icf
Para Alejandro Chafuen, a reunião desta primavera no Brick Hotel, em Buenos Aires, foi tanto uma volta para casa quanto uma volta olímpica. Chafuen, um esguio argentino-americano, passou a vida adulta se dedicando a combater os movimentos sociais e governos de esquerda das Américas do Sul e Central, substituindo-os por uma versão pró-empresariado do libertarianismo.
Ele lutou sozinho durante décadas, mas isso está mudando. Chafuen estava rodeado de amigos no Latin America Liberty Forum 2017. Essa reunião internacional de ativistas libertários foi patrocinada pela Atlas Economic Research Foundation, uma organização sem fins lucrativos conhecida como Atlas Network (Rede Atlas), que Chafuen dirige desde 1991. No Brick Hotel, ele festejou as vitórias recentes; seus anos de trabalho estavam começando a render frutos – graças às circunstâncias políticas e econômicas e à rede de ativistas que Chafuen se esforçou tanto para criar.
Nos últimos 10 anos, os governos de esquerda usaram “dinheiro para comprar votos, para redistribuir”, diz Chaufen, confortavelmente sentado no saguão do hotel. Mas a recente queda do preço das commodities, aliada a escândalos de corrupção, proporcionou uma oportunidade de ação para os grupos da Atlas Network. “Surgiu uma abertura – uma crise – e uma demanda por mudanças, e nós tínhamos pessoas treinadas para pressionar por certas políticas”, observa Chafuen, parafraseando o falecido Milton Friedman. “No nosso caso, preferimos soluções privadas aos problemas públicos”, acrescenta.
Chafuen cita diversos líderes ligados à Atlas que conseguiram ganhar notoriedade: ministros do governo conservador argentino, senadores bolivianos e líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), que ajudaram a derrubar a presidente Dilma Rousseff – um exemplo vivo dos frutos do trabalho da rede Atlas, que Chafuen testemunhou em primeira mão.
“Estive nas manifestações no Brasil e pensei: ‘Nossa, aquele cara tinha uns 17 anos quando o conheci, e agora está ali no trio elétrico liderando o protesto. Incrível!’”, diz, empolgado. É a mesma animação de membros da Atlas quando o encontram em Buenos Aires; a tietagem é constante no saguão do hotel. Para muitos deles, Chafuen é uma mistura de mentor, patrocinador fiscal e verdadeiro símbolo da luta por um novo paradigma político em seus países.
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, à esquerda, dentro de um carro em direção ao aeroporto, onde pegaria um voo para a Nicarágua nos arredores de San José. Domingo, 28 de junho de 2009.
Foto: Kent Gilbert/AP
Uma guinada à direita está em marcha na política latino-americana, destronando os governos socialistas que foram a marca do continente durante boa parte do século XXI – de Cristina Kirchner, na Argentina, ao defensor da reforma agrária e populista Manuel Zelaya, em Honduras –, que implementaram políticas a favor dos pobres, nacionalizaram empresas e desafiaram a hegemonia dos EUA no continente. Essa alteração pode parecer apenas parte de um reequilíbrio regional causado pela conjuntura econômica, porém a Atlas Network parece estar sempre presente, tentando influenciar o curso das mudanças políticas.
A história da Atlas Network e seu profundo impacto na ideologia e no poder político nunca foi contada na íntegra. Mas os registros de suas atividades em três continentes, bem como as entrevistas com líderes libertários na América Latina, revelam o alcance de sua influência. A rede libertária, que conseguiu alterar o poder político em diversos países, também é uma extensão tácita da política externa dos EUA – os _think tanks_associados à Atlas são discretamente financiados pelo Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia – NED), braço crucial do _soft power_norte-americano.
Embora análises recentes tenham revelado o papel de poderosos bilionários conservadores – como os irmãos Koch – no desenvolvimento de uma versão pró-empresariado do libertarianismo, a Atlas Network – que também é financiada pelas fundações Koch – tem usado métodos criados no mundo desenvolvido, reproduzindo-os em países em desenvolvimento. A rede é extensa, contando atualmente com parcerias com 450 _think tanks_em todo o mundo. A Atlas afirma ter gasto mais de US$ 5 milhões com seus parceiros apenas em 2016.
Ao longo dos anos, a Atlas e suas fundações caritativas associadas realizaram centenas de doações para _think tanks_conservadores e defensores do livre mercado na América Latina, inclusive a rede que apoiou o Movimento Brasil Livre (MBL) e organizações que participaram da ofensiva libertária na Argentina, como a Fundação Pensar, um _think tank_da Atlas que se incorporou ao partido criado por Mauricio Macri, um homem de negócios e atual presidente do país. Os líderes do MBL e o fundador da Fundação Eléutera – um _think tank_neoliberal extremamente influente no cenário pós-golpe hondurenho – receberam financiamento da Atlas e fazem parte da nova geração de atores políticos que já passaram pelos seus seminários de treinamento.
A Atlas Network conta com dezenas de _think tanks_na América Latina, inclusive grupos extremamente ativos no apoio às forças de oposição na Venezuela e ao candidato de centro-direita às eleições presidenciais chilenas, Sebastián Piñera.
Protesto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff diante do Congresso Nacional, em Brasília, no dia 2 de dezembro de 2015.
Photo: Eraldo Peres/AP
Em nenhum outro lugar a estratégia da Atlas foi tão bem sintetizada quanto na recém-formada rede brasileira de _think tanks_de defesa do livre mercado. Os novos institutos trabalham juntos para fomentar o descontentamento com as políticas socialistas; alguns criam centros acadêmicos enquanto outros treinam ativistas e travam uma guerra constante contra as ideias de esquerda na mídia brasileira.
O esforço para direcionar a raiva da população contra a esquerda rendeu frutos para a direita brasileira no ano passado. Os jovens ativistas do MBL – muitos deles treinados em organização política nos EUA – lideraram um movimento de massa para canalizar a o descontentamento popular com um grande escândalo de corrupção para desestabilizar Dilma Rousseff, uma presidente de centro-esquerda. O escândalo, investigado por uma operação batizada de Lava-Jato, continua tendo desdobramentos, envolvendo líderes de todos os grandes partidos políticos brasileiros, inclusive à direita e centro-direita. Mas o MBL soube usar muito bem as redes sociais para direcionar a maior parte da revolta contra Dilma, exigindo o seu afastamento e o fim das políticas de bem-estar social implementadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
A revolta – que foi comparada ao movimento Tea Party devido ao apoio tácito dos conglomerados industriais locais e a uma nova rede de atores midiáticos de extrema-direita e tendências conspiratórias – conseguiu interromper 13 anos de dominação do PT ao afastar Dilma do cargo por meio de um impeachment em 2016.
O cenário político do qual surgiu o MBL é uma novidade no Brasil. Havia no máximo três _think tanks_libertários em atividade no país dez anos atrás, segundo Hélio Beltrão, um ex-executivo de um fundo de investimentos de alto risco que agora dirige o Instituto Mises, uma organização sem fins lucrativos que recebeu o nome do filósofo libertário Ludwig von Mises. Ele diz que, com o apoio da Atlas, agora existem cerca de 30 institutos agindo e colaborando entre si no Brasil, como o Estudantes pela Liberdade e o MBL.
“É como um time de futebol; a defesa é a academia, e os políticos são os atacantes. E já marcamos alguns gols”, diz Beltrão, referindo-se ao impeachment de Dilma. O meio de campo seria “o pessoal da cultura”, aqueles que formam a opinião pública.
Beltrão explica que a rede de _think tanks_está pressionando pela privatização dos Correios, que ele descreve como “uma fruta pronta para ser colhida” e que pode conduzir a uma onda de reformas mais abrangentes em favor do livre mercado. Muitos partidos conservadores brasileiros acolheram os ativistas libertários quando estes demonstraram que eram capazes de mobilizar centenas de milhares de pessoas nos protestos contra Dilma, mas ainda não adotaram as teorias da “economia do lado da oferta”.
Fernando Schüler, acadêmico e colunista associado ao Instituto Millenium – outro _think tank_da Atlas no Brasil – tem uma outra abordagem. “O Brasil tem 17 mil sindicatos pagos com dinheiro público. Um dia de salário por ano vai para os sindicatos, que são completamente controlados pela esquerda”, diz. A única maneira de reverter a tendência socialista seria superá-la no jogo de manobras políticas. “Com a tecnologia, as pessoas poderiam participar diretamente, organizando – no WhatsApp, Facebook e YouTube – uma espécie de manifestação pública de baixo custo”, acrescenta, descrevendo a forma de mobilização de protestos dos libertários contra políticos de esquerda. Os organizadores das manifestações anti-Dilma produziram uma torrente diária de vídeos no YouTube para ridicularizar o governo do PT e criaram um placar interativo para incentivar os cidadãos a pressionarem seus deputados por votos de apoio ao impeachment.
Schüler notou que, embora o MBL e seu próprio _think tank_fossem apoiados por associações industriais locais, o sucesso do movimento se devia parcialmente à sua não identificação com partidos políticos tradicionais, em sua maioria vistos com maus olhos pela população. Ele argumenta que a única forma de reformar radicalmente a sociedade e reverter o apoio popular ao Estado de bem-estar social é travar uma guerra cultural permanente para confrontar os intelectuais e a mídia de esquerda.
Fernando Schüler.Foto:captura de tela do YouTubeUm dos fundadores do Instituto Millenium, o blogueiro Rodrigo Constantino, polariza a política brasileira com uma retórica ultrassectária. Constantino, que já foi chamado de “o Breitbart brasileiro” devido a suas teorias conspiratórias e seus comentários de teor radicalmente direitistas, é presidente do conselho deliberativo de outro _think tank_da Atlas – o Instituto Liberal. Ele enxerga uma tentativa velada de minar a democracia em cada movimento da esquerda brasileira, do uso da cor vermelha na logomarca da Copa do Mundo ao Bolsa Família, um programa de transferência de renda. Constantino é considerado o responsável pela popularização de uma narrativa segundo a qual os defensores do PT seriam uma “esquerda caviar”, ricos hipócritas que abraçam o socialismo para se sentirem moralmente superiores, mas que na realidade desprezam as classes trabalhadoras que afirmam representar. A “breitbartização” do discurso é apenas uma das muitas formas sutis pelas quais a Atlas Network tem influenciado o debate político.
“Temos um Estado muito paternalista. É incrível. Há muito controle estatal, e mudar isso é um desafio de longo prazo”, diz Schüler, acresentando que, apesar das vitórias recentes, os libertários ainda têm um longo caminho pela frente no Brasil. Ele gostaria de copiar o modelo de Margaret Thatcher, que se apoiava em uma rede de _think tanks_libertários para implementar reformas impopulares. “O sistema previdenciário é absurdo, e eu privatizaria toda a educação”, diz Schüler, pondo-se a recitar toda a litania de mudanças que faria na sociedade, do corte do financiamento a sindicatos ao fim do voto obrigatório.
Mas a única maneira de tornar tudo isso possível, segundo ele, seria a formação de uma rede politicamente engajada de organizações sem fins lucrativos para defender os objetivos libertários. Para Schüler, o modelo atual – uma constelação de _think tanks_em Washington sustentada por vultosas doações – seria o único caminho para o Brasil.
E é exatamente isso que a Atlas tem se esforçado para fazer. Ela oferece subvenções a novos _think tanks_e cursos sobre gestão política e relações públicas, patrocina eventos de _networking_no mundo todo e, nos últimos anos, tem estimulado libertários a tentar influenciar a opinião pública por meio das redes sociais e vídeos online.
Uma competição anual incentiva os membros da Atlas a produzir vídeos que viralizem no YouTube promovendo o _laissez-faire_e ridicularizando os defensores do Estado de bem-estar social. James O’Keefe, provocador famoso por alfinetar o Partido Democrata americano com vídeos gravados em segredo, foi convidado pela Atlas para ensinar seus métodos. No estado americano do Wisconsin, um grupo de produtores que publicava vídeos na internet para denegrir protestos de professores contra o ataque do governador Scott Walker aos sindicatos do setor público também compartilharam sua experiência nos cursos da Atlas.
Manifestantes queimam um boneco do presidente Hugo Chávez na Plaza Altamira, em protesto contra o governo.
Foto: Lonely Planet Images/Getty Images
Em uma de suas últimas realizações, a Atlas influenciou uma das crises políticas e humanitárias mais graves da América Latina: a venezuelana. Documentos obtidos graças ao “Freedom of Information Act” (Lei da Livre Informação, em tradução livre) por simpatizantes do governo venezuelano – bem como certos telegramas do Departamento de Estado dos EUA vazados por Chelsea Manning – revelam uma complexo tentativa do governo americano de usar os _think tanks_da Atlas em uma campanha para desestabilizar o governo de Hugo Chávez. Em 1998, a CEDICE Libertad – principal organização afiliada à Atlas em Caracas, capital da Venezuela – já recebia apoio financeiro do Center for International Private Enterprise (Centro para a Empresa Privada Internacional – CIPE). Em uma carta de financiamento do NED, os recursos são descritos como uma ajuda para “a mudança de governo”. O diretor da CEDICE foi um dos signatários do controverso “Decreto Carmona” em apoio ao malsucedido golpe militar contra Chávez em 2002.
Um telegrama de 2006 descrevia a estratégia do embaixador americano, William Brownfield, de financiar organizações politicamente engajadas na Venezuela: “1) Fortalecer instituições democráticas; 2) penetrar na base política de Chávez; 3) dividir o chavismo; 4) proteger negócios vitais para os EUA, e 5) isolar Chávez internacionalmente.”
Na atual crise venezuelana, a CEDICE tem promovido a recente avalanche de protestos contra o presidente Nicolás Maduro, o acossado sucessor de Chávez. A CEDICE está intimamente ligada à figura da oposicionista María Corina Machado, uma das líderes das manifestações em massa contra o governo dos últimos meses. Machado já agradeceu publicamente à Atlas pelo seu trabalho. Em um vídeo enviado ao grupo em 2014, ela diz: “Obrigada à Atlas Network e a todos os que lutam pela liberdade.”
Em 2014, a líder opositora María Corina Machado agradeceu à Atlas pelo seu trabalho: “Obrigada à Atlas Network e a todos os que lutam pela liberdade.”No Latin America Liberty Forum, organizado pela Atlas Network em Buenos Aires, jovens líderes compartilham ideias sobre como derrotar o socialismo em todos os lugares, dos debates em _campi_universitários a mobilizações nacionais a favor de um impeachment.
Em uma das atividades do fórum, “empreendedores” políticos de Peru, República Dominicana e Honduras competem em um formato parecido com o programa Shark Tank, um _reality show_americano em que novas empresas tentam conquistar ricos e impiedosos investidores. Mas, em vez de buscar financiamento junto a um painel de capitalistas de risco, esses diretores de _think tanks_tentam vender suas ideias de marketing político para conquistar um prêmio de US$ 5 mil. Em outro encontro, debatem-se estratégias para atrair o apoio do setor industrial às reformas econômicas. Em outra sala, ativistas políticos discutem possíveis argumentos que os “amantes da liberdade” podem usar para combater o crescimento do populismo e “canalizar o sentimento de injustiça de muitos” para atingir os objetivos do livre mercado.
Um jovem líder da Cadal, um _think tank_de Buenos Aires, deu a ideia de classificar as províncias argentinas de acordo com o que chamou de “índice de liberdade econômica” – levando em conta a carga tributária e regulatória como critérios principais –, o que segundo ela geraria um estímulo para a pressão popular por reformas de livre mercado. Tal ideia é claramente baseada em estratégias similares aplicadas nos EUA, como o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation, que classifica os países de acordo com critérios como política tributária e barreiras regulatórias aos negócios.
Os _think tanks_são tradicionalmente vistos como institutos independentes que tentam desenvolver soluções não convencionais. Mas o modelo da Atlas se preocupa menos com a formulação de novas soluções e mais com o estabelecimento de organizações políticas disfarçadas de instituições acadêmicas, em um esforço para conquistar a adesão do público.
As ideias de livre mercado – redução de impostos sobre os mais ricos; enxugamento do setor público e privatizações; liberalização das regras de comércio e restrições aos sindicatos – sempre tiveram um problema de popularidade. Os defensores dessa corrente de pensamento perceberam que o eleitorado costuma ver essas ideias como uma maneira de favorecer as camadas mais ricas. E reposicionar o libertarianismo econômico como uma ideologia de interesse público exige complexas estratégias de persuasão em massa.
Mas o modelo da Atlas, que está se espalhando rapidamente pela América Latina, baseia-se em um método aperfeiçoado durante décadas de embates nos EUA e no Reino Unido, onde os libertários se esforçaram para conter o avanço do Estado de bem-estar social do pós-guerra.
Mapa das organizações da rede Atlas na América do Sul.
Fonte: The Intercept
Antony Fisher, empreendedor britânico e fundador da Atlas Network, é um pioneiro na venda do libertarianismo econômico à opinião pública. A estratégia era simples: nas palavras de um colega de Fisher, a missão era “encher o mundo de _think tanks_que defendam o livre mercado”.
A base das ideias de Fisher vêm de Friedrich Hayek, um dos pais da defesa do Estado mínimo. Em 1946, depois de ler um resumo do livro seminal de Hayek, O Caminho da Servidão, Fisher quis se encontrar com o economista austríaco em Londres. Segundo seu colega John Blundell, Fisher sugeriu que Hayek entrasse para a política. Mas Hayek se recusou, dizendo que uma abordagem de baixo para cima tinha mais chances de alterar a opinião pública e reformar a sociedade.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, outro ideólogo do livre mercado, Leonard Read, chegava a conclusões parecidas depois de ter dirigido a Câmara de Comércio de Los Angeles, onde batera de frente com o sindicalismo. Para deter o crescimento do Estado de bem-estar social, seria necessária uma ação mais elaborada no sentido de influenciar o debate público sobre os destinos da sociedade, mas sem revelar a ligação de tal estratégia com os interesses do capital.
Fisher animou-se com uma visita à organização recém-fundada por Read, a Foundation for Economic Education (Fundação para a Educação Econômica – FEE), em Nova York, criada para patrocinar e promover as ideias liberais. Nesse encontro, o economista libertário F.A. Harper, que trabalhava na FEE à epoca, orientou Fisher sobre como abrir a sua própria organização sem fins lucrativos no Reino Unido.
Durante a viagem, Fisher e Harper foram à Cornell University para conhecer a última novidade da indústria animal: 15 mil galinhas armazenadas em uma única estrutura. Fisher decidiu levar o invento para o Reino Unido. Sua fábrica, a Buxted Chickens, logo prosperou e trouxe grande fortuna para Fisher. Uma parte dos lucros foi direcionada à realização de outro objetivo surgido durante a viagem a Nova York – em 1955, Fisher funda o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos – IEA).
O IEA ajudou a popularizar os até então obscuros economistas ligados às ideias de Hayek. O instituto era um baluarte de oposição ao crescente Estado de bem-estar social britânico, colocando jornalistas em contato com acadêmicos defensores do livre mercado e disseminando críticas constantes sob a forma de artigos de opinião, entrevistas de rádio e conferências.
A maior parte do financiamento do IEA vinha de empresas privadas, como os gigantes do setor bancário e industrial Barclays e British Petroleum, que contribuíam anualmente. No livro Making Thatcher’s Britain(A Construção da Grã-Bretanha de Thatcher, em tradução livre), dos historiadores Ben Jackson e Robert Saunders, um magnata dos transportes afirma que, assim como as universidades forneciam munição para os sindicatos, o IEA era uma importante fonte de poder de fogo para os empresários.
Quando a desaceleração econômica e o aumento da inflação dos anos 1970 abalou os fundamentos da sociedade britânica, políticos conservadores começaram a se aproximar do IEA como fonte de uma visão alternativa. O instituto aproveitou a oportunidade e passou a oferecer plataformas para que os políticos pudessem levar os conceitos do livre mercado para a opinião pública. A Atlas Network afirma orgulhosamente que o IEA “estabeleceu as bases intelectuais do que viria a ser a revolução de Thatcher nos anos 1980”. A equipe do instituto escrevia discursos para Margaret Thatcher; fornecia material de campanha na forma de artigos sobre temas como sindicalismo e controle de preços; e rebatia as críticas à Dama de Ferro na mídia inglesa. Em uma carta a Fisher depois de vencer as eleições de 1979, Thatcher afirmou que o IEA havia criado, na opinião pública, “o ambiente propício para a nossa vitória”.
“Não há dúvidas de que tivemos um grande avanço na Grã-Bretanha. O IEA, fundado por Antony Fisher, fez toda a diferença”, disse Milton Friedman uma vez. “Ele possibilitou o governo de Margaret Thatcher – não a sua eleição como primeira-ministra, e sim as políticas postas em prática por ela. Da mesma forma, o desenvolvimento desse tipo de pensamento nos EUA possibilitou o a implementação das políticas de Ronald Reagan”, afirmou.
O IEA fechava um ciclo. Hayek havia criado um seleto grupo de economistas defensores do livre mercado chamado Sociedade Mont Pèlerin. Um de seus membros, Ed Feulner, ajudou o fundar o _think tank_conservador Heritage Foundation, em Washington, inspirando-se no trabalho de Fisher. Outro membro da Sociedade, Ed Crane, fundou o Cato Institute, o mais influente _think tank_libertário dos Estados Unidos.
_O filósofo e economista anglo-austríaco Friedrich Hayek com um grupo de alunos na London School of Economics, em 1948._Foto: Paul PoppePopperfoto/Getty Images
Em 1981, Fisher, que havia se mudado para San Francisco, começou a desenvolver a Atlas Economic Research Foundation por sugestão de Hayek. Fisher havia aproveitado o sucesso do IEA para conseguir doações de empresas para seu projeto de criação de uma rede regional de _think tanks_em Nova York, Canadá, Califórnia e Texas, entre outros. Mas o novo empreendimento de Fisher viria a ter uma dimensão global: uma organização sem fins lucrativos dedicada a levar sua missão adiante por meio da criação de postos avançados do libertarianismo em todos os países do mundo. “Quanto mais institutos existirem no mundo, mais oportunidade teremos para resolver problemas que precisam de uma solução urgente”, declarou.
Fisher começou a levantar fundos junto a empresas com a ajuda de cartas de recomendação de Hayek, Thatcher e Friedman, instando os potenciais doadores a ajudarem a reproduzir o sucesso do IEA através da Atlas. Hayek escreveu que o modelo do IEA “deveria ser usado para criar institutos similares em todo o mundo”. E acrescentou: “Se conseguíssemos financiar essa iniciativa conjunta, seria um dinheiro muito bem gasto.”
A proposta foi enviada para uma lista de executivos importantes, e o dinheiro logo começou a fluir dos cofres das empresas e dos grandes financiadores do Partido Republicano, como Richard Mellon Scaife. Empresas como a Pfizer, Procter & Gamble e Shell ajudaram a financiar a Atlas. Mas a contribuição delas teria que ser secreta para que o projeto pudesse funcionar, acreditava Fisher. “Para influenciar a opinião pública, é necessário evitar qualquer indício de interesses corporativos ou tentativa de doutrinação”, escreveu Fisher na descrição do projeto, acrescentando que o sucesso do IEA estava baseado na percepção pública do caráter acadêmico e imparcial do instituto.
A Atlas cresceu rapidamente. Em 1985, a rede contava com 27 instituições em 17 países, inclusive organizações sem fins lucrativos na Itália, México, Austrália e Peru.
E o _timing_não podia ser melhor: a expansão internacional da Atlas coincidiu com a política externa agressiva de Ronald Reagan contra governos de esquerda mundo afora.
Embora a Atlas declarasse publicamente que não recebia recursos públicos (Fisher caracterizava as ajudas internacionais como uma forma de “suborno” que distorcia as forças do mercado), há registros da tentativa silenciosa da rede de canalizar dinheiro público para sua lista cada vez maior de parceiros internacionais.
Em 1982, em uma carta da Agência de Comunicação Internacional dos EUA – um pequeno órgão federal destinado a promover os interesses americanos no exterior –, um funcionário do Escritório de Programas do Setor Privado escreveu a Fisher em resposta a um pedido de financiamento federal. O funcionário diz não poder dar dinheiro “diretamente a organizações estrangeiras”, mas que seria possível copatrocinar “conferências ou intercâmbios com organizações” de grupos como a Atlas, e sugere que Fisher envie um projeto. A carta, enviada um ano depois da fundação da Atlas, foi o primeiro indício de que a rede viria a ser uma parceira secreta da política externa norte-americana.
Memorandos e outros documentos de Fisher mostram que, em 1986, a Atlas já havia ajudado a organizar encontros com executivos para tentar direcionar fundos americanos para sua rede de think tanks. Em uma ocasião, um funcionário da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o principal braço de financiamento internacional do governo dos EUA, recomendou que o diretor da filial da Coca-Cola no Panamá colaborasse com a Atlas para a criação de um _think tank_nos moldes do IEA no país. A Atlas também recebeu fundos da Fundação Nacional para a Democracia (NED), uma organização sem fins lucrativos fundada em 1983 e patrocinada em grande parte pelo Departamento de Estado e a USAID cujo objetivo é fomentar a criação de instituições favoráveis aos EUA nos países em desenvolvimento.
Alejandro Chafuen, da Atlas Economic Research Foundation, atrás à direita, cumprimenta Rafael Alonzo, do Centro de Divulgação do Conhecimento Econômico para a Liberdade (CEDICE Libertad), à esquerda, enquanto o escritor peruano Mario Vargas Llosa aplaude a abertura do Fórum Liberdade e Democracia, em Caracas, no dia 28 de maio de 2009.
Foto: Ariana Cubillos/AP
_ _Financiada generosamente por empresas e pelo governo americano, a Atlas deu outro golpe de sorte em 1985 com a chegada de Alejandro Chafuen. Linda Whetstone, filha de Fisher, conta um episódio ocorrido naquele ano, quando um jovem Chafuen, que ainda vivia em Oakland, teria aparecido no escritório da Atlas em San Francisco “disposto a trabalhar de graça”. Nascido em Buenos Aires, Chafuen vinha do que ele chamava “uma família anti-Peronista”. Embora tenha crescido em uma época de grande agitação na Argentina, Chafuen vivia uma vida relativamente privilegiada, tendo passado a adolescência jogando tênis e sonhando em se tornar atleta profissional.
Ele atribui suas escolhas ideológicas a seu apetite por textos libertários, de Ayn Rand a livretos publicados pela FEE, a organização de Leonard Read que havia inspirado Antony Fisher. Depois de estudar no Grove City College, uma escola de artes profundamente conservadora e cristã no estado americano da Pensilvânia, onde foi presidente do clube de estudantes libertários, Chafuen voltou ao país de nascença. Os militares haviam tomado o poder, alegando estar reagindo a uma suposta ameaça comunista. Milhares de estudantes e ativistas seriam torturados e mortos durante a repressão à oposição de esquerda no período que se seguiu ao golpe de Estado.
Chafuen recorda essa época de maneira mais positiva do que negativa. Ele viria a escrever que os militares haviam sido obrigados a agir para evitar que os comunistas “tomassem o poder no país”. Durante sua carreira como professor, Chafuen diz ter conhecido “totalitários de todo tipo” no mundo acadêmico. Segundo ele, depois do golpe militar seus professores “abrandaram-se”, apesar das diferenças ideológicas entre eles.
Em outros países latino-americanos, o libertarianismo também encontrara uma audiência receptiva nos governos militares. No Chile, depois da derrubada do governo democraticamente eleito de Salvador Allende, os economistas da Sociedade Mont Pèlerin acorreram ao país para preparar profundas reformas liberais, como a privatização de indústrias e da Previdência. Em toda a região, sob a proteção de líderes militares levados ao poder pela força, as políticas econômicas libertárias começaram a se enraizar.
Já o zelo ideológico de Chafuen começou a se manifestar em 1979, quando ele publicou um ensaio para a FEE intitulado “War Without End” (Guerra Sem Fim). Nele, Chafuen descreve horrores do terrorismo de esquerda “como a família Manson, ou, de forma organizada, os guerrilheiros do Oriente Médio, África e América do Sul”. Haveria uma necessidade, segundo ele, de uma reação das “forças da liberdade individual e da propriedade privada”.
Seu entusiasmo atraiu a atenção de muita gente. Em 1980, aos 26 anos, Chafuen foi convidado a se tornar o membro mais jovem da Sociedade Mont Pèlerin. Ele foi até Stanford, tendo a oportunidade de conhecer Read, Hayek e outros expoentes libertários. Cinco anos depois, Chafuen havia se casado com uma americana e estava morando em Oakland. E começou a fazer contato com membros da Mont Pèlerin na área da Baía de San Francisco – como Fisher.
Em toda a região, sob a proteção de líderes militares levados ao poder pela força, as políticas econômicas libertárias começaram a se enraizar.De acordo com as atas das reuniões do conselho da Atlas, Fisher disse aos colegas que havia feito um pagamento _ex gratia_no valor de US$ 500 para Chafuen no Natal de 1985, declarando que gostaria de contratar o economista para trabalhar em tempo integral no desenvolvimento dos _think tanks_da rede na América Latina. No ano seguinte, Chafuen organizou a primeira cúpula de _think tanks_latino-americanos, na Jamaica.
Chafuen compreendera o modelo da Atlas e trabalhava incansavelmente para expandir a rede, ajudando a criar _think tanks_na África e na Europa, embora seu foco continuasse sendo a América Latina. Em uma palestra sobre como atrair financiadores, Chafuen afirmou que os doadores não podiam financiar publicamente pesquisas, sob o risco de perda de credibilidade. “A Pfizer não patrocinaria uma pesquisa sobre questões de saúde, e a Exxon não financiaria uma enquete sobre questões ambientais”, observou. Mas os _think tanks_libertários – como os da Atlas Network –não só poderiam apresentar as mesmas pesquisas sob um manto de credibilidade como também poderiam atrair uma cobertura maior da mídia.
“Os jornalistas gostam muito de tudo o que é novo e fácil de noticiar”, disse Chafuen. Segundo ele, a imprensa não tem interesse em citar o pensamento dos filósofos libertários, mas pesquisas produzidas por um _think tank_são mais facilmente reproduzidas. “E os financiadores veem isso”, acrescenta.
Em 1991, três anos depois da morte de Fisher, Chafuen assumiu a direção da Atlas – e pôs-se a falar sobre o trabalho da Atlas para potenciais doadores. E logo começou a conquistar novos financiadores. A Philip Morris deu repetidas contribuições à Atlas, inclusive uma doação de US$ 50 mil em 1994, revelada anos depois. Documentos mostram que a gigante do tabaco considerava a Atlas uma aliada em disputas jurídicas internacionais.
Mas alguns jornalistas chilenos descobriram que _think tanks_patrocinados pela Atlas haviam feito pressão por trás dos panos contra a legislação antitabagista sem revelar que estavam sendo financiadas por empresas de tabaco – uma estratégia praticada por _think tanks_em todo o mundo.
Grandes corporações como ExxonMobil e MasterCard já financiaram a Atlas. Mas o grupo também atrai grandes figuras do libertarianismo, como as fundações do investidor John Templeton e dos irmãos bilionários Charles e David Koch, que cobriam a Atlas e seus parceiros de generosas e frequentes doações. A habilidade de Chafuen para levantar fundos resultou em um aumento do número de prósperas fundações conservadoras. Ele é membro-fundador do Donors Trust, um discreto fundo orientado ao financiamento de organizações sem fins lucrativos que já transferiu mais de US$ 400 milhões a entidades libertárias, incluindo membros da Atlas Network. Chafuen também é membro do conselho diretor da Chase Foundation of Virginia, outra entidade financiadora da Atlas, fundada por um membro da Sociedade Mont Pèlerin.
Outra grande fonte de dinheiro é o governo americano. A princípio, a Fundação Nacional para a Democracia encontrou dificuldades para criar entidades favoráveis aos interesses americanos no exterior. Gerardo Bongiovanni, presidente da Fundación Libertad, um _think tank_da Atlas em Rosario, na Argentina, afirmou durante uma palestra de Chafuen que a injeção de capital do Center for International Private Enterprise – parceiro do NED no ramo de subvenções – fora de apenas US$ 1 milhão entre 1985 e 1987. Os _think tanks_que receberam esse capital inicial logo fecharam as portas, alegando falta de treinamento em gestão, segundo Bongiovanni.
No entanto, a Atlas acabou conseguindo canalizar os fundos que vinham do NED e do CIPE, transformando o dinheiro do contribuinte americano em uma importante fonte de financiamento para uma rede cada vez maior. Os recursos ajudavam a manter _think tanks_na Europa do Leste, após a queda da União Soviética, e, mais tarde, para promover os interesses dos EUA no Oriente Médio. Entre os beneficiados com dinheiro do CIPE está a CEDICE Libertad, a entidade a que líder opositora venezuelana María Corina Machado fez questão de agradecer.
O assessor da Casa Branca Sebastian Gorka participa de uma entrevista do lado de fora da Ala Oeste da Casa Branca em 9 de junho de 2017 – Washington, EUA.
Foto: Chip Somodevilla/Getty Images
_ _No Brick Hotel, em Buenos Aires, Chafuen reflete sobre as três últimas décadas. “Fisher ficaria satisfeito; ele não acreditaria em quanto nossa rede cresceu”, afirma, observando que talvez o fundador da Atlas ficasse surpreso com o atual grau de envolvimento político do grupo.
Chafuen se animou com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. Ele é só elogios para a equipe do presidente. O que não é nenhuma surpresa, pois o governo Trump está cheio de amigos e membros de grupos ligados à Atlas. Sebastian Gorka, o islamofóbico assessor de contraterrorismo de Trump, dirigiu um _think tank_patrocinado pela Atlas na Hungria. O vice-presidente Mike Pence compareceu a um encontro da Atlas e teceu elogios ao grupo. A secretária de Educação Betsy DeVos trabalhou com Chafuen no Acton Institute, um _think tank_de Michigan que usa argumentos religiosos a favor das políticas libertárias – e que agora tem uma entidade subsidiária no Brasil, o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista. Mas talvez a figura mais admirada por Chafuen no governo dos EUA seja Judy Shelton, uma economista e velha companheira da Atlas Network. Depois da vitória de Trump, Shelton foi nomeada presidente da NED. Ela havia sido assessora de Trump durante a campanha e o período de transição. Chafuen fica radiante ao falar sobre o assunto: “E agora tem gente da Atlas na presidência da Fundação Nacional para a Democracia (NED)”, comemora.
Antes de encerrar a entrevista, Chafuen sugere que ainda vem mais por aí: mais think tanks, mais tentativas de derrubar governos de esquerda, e mais pessoas ligadas à Atlas nos cargos mais altos de governos ao redor do mundo. “É um trabalho contínuo”, diz.
Mais tarde, Chafuen compareceu ao jantar de gala do Latin America Liberty Forum. Ao lado de um painel de especialistas da Atlas, ele discutiu a necessidade de reforçar os movimentos de oposição libertária no Equador e na Venezuela.
Danielle Mackey contribuiu na pesquisa para essa matéria. Tradução: Bernardo Tonasse
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2017.08.02 12:57 feedreddit The Intercept Brasil completa um ano e planeja crescer mais

The Intercept Brasil completa um ano e planeja crescer mais
by Glenn Greenwald via The Intercept
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The Intercept Brasil faz aniversário hoje. Em nosso lançamento, em 2 de agosto de 2016, explicamos nossos propósitos e objetivos, observando o “desejo dos brasileiros por formas alternativas de jornalismo e reportagem”. Esse desejo é baseado na cruel realidade de que o país “tem sido dominado por um pequeno grupo de poderosas instituições de mídia, sendo que quase todas elas apoiaram o golpe de 1964 e a subsequente ditadura militar de direita de 21 anos seguidos e que o país continua dominado pelo mesmo grupo de famílias extremamente ricas, ainda responsáveis por essa história”.
Estávamos determinados a ser uma plataforma para vozes, perspectivas e eventos cruciais, que foram deliberadamente ignorados e excluídos pelos maiores meios de comunicação do país. Como dissemos em agosto passado: “Em um país notavelmente diverso e plural, a homogeneidade de propriedade da mídia resultou em um cenário jornalístico que sufoca a diversidade e pluralidade de pontos de vista.”
Um ponto central nessa missão era levar esse tipo de jornalismo a todas as partes do Brasil, além de usar nosso status como veículo de notícias internacionais para publicar o nosso trabalho em português e inglês e, assim, destacar o nossas reportagens sobre o Brasil no exterior. Nós prometemos também usar nossa experiência em reportagens sobre vazamentos para ajudar a promover um clima de proteção e transparência de fontes por meio de denúncias anônimas.
Estamos ainda mais entusiasmados com a oportunidade de trabalhar com outros veículos independentes e contribuir com o espírito de um jornalismo que esteve em falta no Brasil por muito tempo.Consideramos, após um ano, essa missão mais vital do que nunca. Estamos ainda mais entusiasmados com a oportunidade de trabalhar com outros veículos independentes e contribuir com o espírito de um jornalismo que esteve em falta no Brasil por muito tempo. À medida em que a crise política e econômica do país se aprofunda e, uma vez que as eleições de 2018 apresentam uma ampla gama de possibilidades – variando do excitante ao assustador –, a necessidade de um jornalismo agressivo, questionador e verdadeiramente independente será maior do que nunca.
Temos orgulho da talentosa e variada equipe de repórteres, editores e colunistas que reunimos em apenas um ano. Eles produziram uma grande quantidade de investigações exclusivas, de alto impacto e análises perspicazes que ajudaram a moldar o ciclo de notícias, expor a enome corrupção e exigir mudanças.
Na semana passada, nossa investigação das finanças do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, segundo na linha presidencial, forçou o deputado a explicar como ele acabou virando dono de escritórios usados pela Odebrecht e o banco BTG Pactual, fatos antes encobertos. Em maio, a matéria de Cecília Oliveira sobre uma fazenda onde turistas podem ser escravocratas por um dia levou a um acordo de ajustamento de conduta entre a estabelecimento e o Ministério Público. Graças a uma reportagem exclusiva da The Intercept Brasil em janeiro, o Ministério Público ordenou que o governo federal pagasse R$ 10 milhões em indenização a uma tribo indígena violentamente invadida pela Polícia Federal em 2012. O artigo é parte de uma série de 14 matérias produzida em parceria com o site de notícias ambiental norte-americano Mongabay.
Em abril, o Exército brasileiro concordou em acabar com o monopólio da fabricante de armas Taurus no fornecimento de armas de baixo calibre às forças policiais. Os defeitos de fabricação estavam fazendo com que os projéteis disparassem sem que o gatilho fosse puxado e emperrando durante o uso, causando muitas mortes. A investigação do TIB foi a primeira matéria detalhada sobre o assunto, fazendo com que outros veículos também cobrissem o tema.
Uma comissão do Congresso foi instaurada depois de uma matéria exclusiva mostrar, em dezembro de 2016, como uma ferramenta que o governo dizia ser usada para proteger as terras indígenas e reservas ambientais estava sendo usada pela Abin para criar uma megabase de dados para espionar movimentos sociais, sindicatos e outras organizações da sociedade civil.
No ano passado, publicamos duas matérias expondo falhas no cerne de uma importante pesquisa do Datafolha, publicadas pela Folha de S. Paulo: o jornal tentou criar uma falsa impressão de que a maioria dos brasileiros queria Michel Temer como presidente. Os dados reais mostraram que uma grande maioria queria que ele renunciasse. Nossa reportagem sobre o tema — uma das mais lidas da história do Intercept — causaram uma reprimenda do ombudsman da Folha e um reconhecimento de Datafolha que os dados foram apresentados de modo impreciso.
Nossa colunista Ana Maria Gonçalves foi convidada pelo The Martin E. Segal Theatre Center, em Nova York, para escrever e apresentar um monólogo baseado em seu artigo sobre apropriação cultural e o caso de uma mulher branca usando lenços de estilo africano que se tornou viral. Outro escritor, João Filho, aborda a corrupção e a propaganda da grande mídia brasileira em sua coluna semanal, sempre com grande audiência, suscitando discussões sobre a necessidade de regulação da mídia. E a nossa análise dos eventos de notícias mais importantes do Brasil – dos inúmeros casos de corrupção de Temer, greves gerais no país, as medidas cruéis de austeridade, até a condenação criminal de Lula – proporcionou uma perspectiva única e alternativa que reverberou em plataformas de notícias mundo afora.
A reportagem de Helena Borges sobre a reforma da educação foi impactante e teve grande resultado. A investigação das tentativas dos bilionários de direita para impulsionar a privatização da educação por meio de fundações teve grande audiência e as fundações nos pressionaram para encerrar ou mudar a matéria, mas não conseguiram identificar nenhum erro. Após notar que o Ministério da Educação maquiou estatísticas para reduzir as notas das escolas públicas nas avaliações padrão (atendendo ao desejo do governo para privatizar escolas e cortar gastos), a pasta foi obrigada a refazer as estatísticas e dizer que cometeu um “erro”. Quando o Ministério cometeu um” erro “similar, meses mais tarde, Helena foi a primeira a cobrí-lo.
Isso é apenas uma amostra de por que estamos tão entusiasmados com o time de excelentes jornalistas que reunimos no ano passado e pelas oportunidades e mudanças que podem surgir com um jornalismo independente e bem apoiado. Não só estamos mais decididos do que nunca a continuar com o jornalismo que temos feito, mas também estamos dedicados a expandir nossa equipe e nossa cobertura no próximo ano, buscando mais financiamento – de modo que possamos crescer sem perder nossa independência. Estamos trabalhando para garantir novos fundos de organizações dedicadas a uma imprensa livre e independente, bem como planejar uma campanha de financiamento apoiada por leitores para o final deste ano.
Não só estamos mais decididos do que nunca a continuar com o jornalismo que temos feito, mas também estamos dedicados a expandir nossa equipe e nossa cobertura no próximo ano.Estamos realmente agradecidos à nossa crescente audiência por permitir que nosso jornalismo tivesse o impacto que teve. Podemos prometer que o segundo ano de nossa existência será construído com o mesmo espírito de independência jornalística, investigações obstinadas e atendimento aos interesses dos nossos leitores.
Sobretudo, continuaremos a dar voz às comunidades e indivíduos que permanecem excluídos pelos grandes meios de comunicação corporativos do Brasil, fazendo o possível para iluminar o que as forças mais poderosas do país estão deixando no escuro. Para nós, esse tipo de responsabilidade e transparência é o objetivo mais nobre do jornalismo e o mais potente fator para o fortalecimento da democracia.
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2015.06.01 22:51 brasilbitcoin Ninguém conhece Satoshi Nakamoto.Identidade do fundador do Bitcoin, desaparecido em 2011, é o grande enigma da era digital

Um dos maiores enigmas da era digital é uma sombra com um nome japonês. Pode ser um só homem, uma organização, um governo ou a própria NSA. Ninguém sabe. Sob o nome de Satoshi Nakamoto se esconde o inventor do Bitcoin, uma criptomoeda que se propôs a revolucionar os sistemas de pagamento na Internet e cujo valor total de mercado hoje é estimado em cerca de 4 bilhões de dólares (12,7 bilhões de reais). Mas ninguém jamais viu o rosto de seu criador nem ouviu sua voz. Em 2011, quando seu invento começava a ser grande e ele poderia ter se tornado milionário, desapareceu. Deixou de responder até os e-mails de seu colaborador mais próximo, Gavin Andressen. Simplesmente disse que iria dedicar-se a outras coisas. O tipo de mensagem que teria escrito alguém que acabasse de fracassar. Não o inventor de algo como o Napster do dinheiro.
Nem sequer se sabe se é uma só pessoa, uma organização, um Governo ou a própria NSA
No final de 2008, Satoshi Nakamoto publicou um artigo de pesquisa onde explicava os fundamentos do Bitcoin, uma nova moeda digital baseada em um software de código aberto e na tecnologia P2P. No documento incluía um endereço de e-mail através do qual trocou mensagens durante dois anos e meio com a comunidade que o ajudou a desenvolvê-lo. O sistema pretendia eliminar os bancos da equação econômica, suprimir comissões, preservar a privacidade nas transações, facilitar os micropagamentos entre pessoas... Nascia em plena crise e possuía todos os elementos relativos ao sinal dos tempos.
Hoje são emitidos 25 bitcoins a cada 10 minutos, e só na Espanha são realizadas 100.000 transações diárias
Hoje, sete anos depois, 25 bitcoins são emitidos a cada 10 minutos no mundo e só na Espanha se realizam 100.000 transações diárias. Muitas empresas começam a aceitá-lo como meio de pagamento (Microsoft, Dell, Destinia…), o Federal Reserve (dos Estados Unidos) estuda incorporá-lo ao sistema e grande parte dos investimentos do Vale do Silício flui para revolucionárias empresas do entorno dessa criptomoeda (230 milhões de dólares somente em 2015). Na Espanha é usada por escritórios de advocacia como o Abanlex. E empresas como a Coinffeine atraem a atenção de todo o mundo por sua guinada à descentralização do Bitcoin mediante a eliminação das casas de câmbio da jogada.
A partir de então, a caça a Satoshi Nakamoto (nome que poderia ser um simples pseudônimo) se transformou em um desafio para jornalistas, especialistas em informática e criptógrafos. The New Yorker e o New York Times apontaram seus candidatos sem obter confirmação de nenhum deles. Mas o caso de maior repercussão ocorreu em março de 2014, quando a Newsweek retomou sua edição impressa com uma bomba na capa: tinham descoberto. A jornalista Leah McGrath Goodman garantia ter localizado um cara comum chamado Dorian Satoshi Nakamoto que vivia humildemente em um subúrbio de Los Angeles. Um físico de origem japonesa cuja biografia guardava coincidências demais com os dados conhecidos do fundador do Bitcoin. Falava um inglês um tanto ruim, havia trabalhado para assuntos secretos do Governo, as pessoas em seu entorno sustentavam que podia ser ele... Segundo a jornalista, na entrada de sua casa ele chegou até mesmo a lhe dizer: “Já não estou envolvido nisso, não posso falar sobre isso. Outras pessoas estão agora encarregadas”. Não dava margem a muitas dúvidas.
No dia seguinte à publicação, porém, o suposto Satoshi desmentiu tudo. Até mesmo garantiu que seis meses antes desconhecia o Bitcoin. O mais doloroso para a jornalista foi que a maioria dos especialistas consultados respaldaram a versão dele. Depois de um ano de silêncio, McGrath atendeu a este jornal, durante dez minutos, mas quis limitar sua declaração oficial a que tanto ela como a Newsweek continuam endossando e dando crédito a seu artigo, ainda postado em sua página na Internet sob uma petição de retificação do advogado do Nakamoto, que negava ser ele. Alguns acreditam que Leah McGrath continua mantendo sua versão porque deve saber algo mais do que publicou.
O Bitcoin é a cristalização de um velho desejo perseguido pelo movimento cypherpunk desde os anos 80 que encontrou a solução no protocolo de Nakamoto. Há uns 14 milhões em circulação – cada um vale hoje uns 220 euros (cerca de 750 reais) – e, pelo modo como o sistema está configurado, permitirá que se reproduzam até 21 milhões (o processo terminaria ao redor do ano 2140). Sua estrutura está baseada na chamada cadeia de blocos, algo assim como as folhas de contabilidade onde são anotadas todas as transações realizadas. Esses blocos são gerados mediante um complexo cálculo que só computadores potentes podem processar (às vezes, centenas deles). Esse trabalho é realizado pelos chamados mineradores, que são recompensados com 25 bitcoins cada vez que obtêm um novo bloco. Um incentivo que começou com 50, mas que cai para a metade à medida que aumenta a complexidade do problema matemático. Logo, seu valor flutua no mercado em função da oferta e da procura, e o preço fixado pelas casas de câmbio.
'Newsweek' afirmou em sua capa ter descoberto o autêntico Satoshi. No dia seguinte, o homem desmentiu
Satoshi Nakamoto foi o primeiro a extrair Bitcoins e poderia ter em sua conta, segundo os cálculos que podem ser feitos consultando a cadeia de blocos, ao redor de um milhão deles. Mas desde que desapareceu em 2011 não movimentou nem um cêntimo. Algo que despertou todo tipo de teoria: desde que perdeu as chaves de sua conta até que os abandonou para não dar pistas de sua identidade. O que está claro é que se trata de alguém que não precisa deles. Além disso, há alguns rastros, extraídos de todos os seus e-mails que vieram a público, que permitem ao menos eliminar alguns suspeitos.
Essa é a única maneira de se aproximar do enigma. Nathaniel Popper, jornalista do New York Times e autor do livro Digital Gold, opina que o contexto histórico é muito importante para definir sua identidade. É preciso entender os experimentos prévios feitos na mesma linha (como o Hashcash ou o B-Money) e que Satoshi provavelmente surgiu desse entorno. Justamente, outro desses antecedentes foi o Bit Gold, uma espécie de versão beta do Bitcoin não desenvolvida. Seu criador, um experimentado criptógrafo chamado Nick Szabo, é quem Nathaniel apontaria se tivesse de apostar em um nome real do verdadeiro Satoshi. “Minha aposta é que esteve envolvido, mas que teve ajuda para desenvolver o código. Ele não era o tipo de programador que poderia fazer esse software sozinho. Há pessoas que o ajudam. Não digo que seja ele, mas que todas as evidências obtidas até a data apontam para ele”, pondera com toda a cautela do mundo. Szabo, como todos os demais anteriormente, nega.
Para as pessoas mais próximas do Bitcoin, tanto por seu uso como pela militância ideológica, desvendar quem é Satoshi é irrelevante. Assim opina Alex Preukschat, autor da história em quadrinhos Bitcoin – The Hunt for Satoshi Nakamoto (Bitcoin – A Caçada a Satoshi Nakamoto). Para ele, o importante é que se trata de um projeto descentralizado p2p cuja estrutura pode ser aplicada a outros campos da vida. “O relevante é a comunidade de pessoas envolvidas. Isso se aplica também à democracia, que só pode ser igualmente boa como a qualidade das pessoas que a compõem. Nos projetos p2p isso se passa de uma forma mais pronunciada: todos os seus membros constituem a força. Para mim, o mais bonito não é o dinheiro ou a tecnologia, mas as novas estruturas descentralizadas que oferece para a sociedade. Trata-se de uma maneira de organizar e incentivar no futuro comportamentos humanos. Algo assim Satoshi devia pensar quando partiu para fazer outras coisas e renunciou a seu invento, e ao milhão de bitcoins de sua conta.
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2014.11.06 09:50 gambozino O jornalismo e os jornalistas em Portugal

Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012
" Enquanto consumidor de informação diária, não apenas por gosto, mas também por imposição profissional, vai-se tornando cada dia mais penoso a confrontação com o “produto” final da comunicação social.
E neste texto nem sequer vem à baila a problemática económica e a asfixia financeira resultante das quebras da publicidade. O problema aqui focado é bem mais antigo e já vem de longe.
A matriz do jornalismo perdeu-se algures, a tal referência que cada jornalista (editores e directores incluídos) devia ter sempre presente na orientação do seu trabalho.
O rigor, o conhecimento, a perseverança, a humildade, a discrição, o distanciamento, tudo se foi esbatendo ao longo dos anos no jornalismo em Portugal.
Os jornalistas tornaram-se arrogantes, vaidosos, sacralizaram-se, passaram a achar-se intocáveis e esqueceram-se da sua missão. Há por aí uma geração de jornalistas entre os 40 e 60 anos particularmente acomodada, desleixada, intransigente e que se acha o farol do conhecimento (assim de repente este autor lembra-se de meia dúzia de nomes). A malta dos 30 anos sofre de outro problema: incompetência e ignorância. Dos 30 (se não dos 35) para baixo entra-se no admirável mundo dos estagiários e dos ordenados de 600 euros.
O produto final é cada vez pior, seja nos jornais, nas televisões, ou nas rádios. Quem está um pouco mais atento a este fenómeno vê diariamente a hecatombe daquilo que já foi uma instituição que se fazia respeitar.
Na maior parte dos casos os jornais transformaram-se em repositórios de egos, sem qualquer talento, onde alguns cronistas se juntam à festa, crentes do seu valor, como se de um acto de fé tratasse.
Já agora, o autor destas linhas sabe (com toda a certeza) que em Portugal apenas existem um ou dois cronistas que contribuem, efectivamente, para a venda de jornais. Todos os outros vivem no seu mundo da fantasia, acreditando que o povo vai à banca comprar um jornal para os ler.
Como se tudo isto não bastasse, os critérios editoriais (quais critérios?) esfumaram-se, as grandes reportagens que ainda vão existindo são pouco sustentadas e deixam sempre espaço para desmentidos e dúvidas. E depois andam por aí ainda uns jornalistas apelidados de “grandes repórteres” que não se sabe que grandes reportagens fazem.
Há também os jornalistas que já se esqueceram do seu código deontológico e deixam-se levar pelas emoções, acabando por dar ao leitor tudo menos um trabalho jornalístico de qualidade.
Há ainda umas vedetas que se passeiam pelas redacções, mas que na verdade poucas notícias dão e raramente “tiram o rabo” da cadeira e vão para a “rua”.
E como Portugal é um país de “modas” há uma que está muito em voga: a publicação de notas editoriais sucessivas para justificarem artigos anteriores. Por mais errados que estejam, lá surge uma nota editorial a justificar perante os leitores a “verdade” daquele mesmo artigo.
Outra constatação curiosa é a de que em Portugal os jornais parece que nunca erram, já que este autor não se lembra de um único caso em que membros de direcção ou com responsabilidades editoriais de um jornal tenham apresentado a sua demissão. Apesar de terem sido muitos e graves erros que se verificaram nos últimos anos em jornais. Assim de repente vêm à memória vários casos vergonhosos, mas perante os quais ninguém assumiu responsabilidades.
Por menos, o autor destas linhas recorda-se de demissões no New York Times ou na BBC News. Ou seja, verifica-se o erro (que pode acontecer), mas rapidamente há um assumir de culpa e uma tentativa de melhorar.
Quando se olha para o jornalismo e para os jornalistas é importante fazer a distinção das várias áreas de interesse (política, economia, sociedade, desporto, cultura, etc), porque cada uma delas tem as suas particularidades e os seus vícios.
O caso mais exemplar da podridão que se apoderou do jornalismo encontra-se na área da política. É o grau zero do jornalismo, onde a promiscuidade e o autismo dominam as relações entre jornalistas e políticos. Basta ver a cobertura dos assuntos da Assembleia. É algo deplorável e pobre, com as televisões a contribuírem para este espectáculo deprimente.
Mas a verdade é que estes jornalistas foram "endeusados" pela classe política, tornando-os seus “amigos” e “protegidos”. Estes, por seu lado, deslumbrados pela importância que lhes davam, foram cedendo à atracção do poder, perdendo focagem e capacidade crítica e de raciocínio.
Os políticos, bajuladores e subservientes, deram força a esta relação, sempre na ânsia de recolher dividendos dos seus “amigos” jornalistas. Obviamente, que têm sido muitas as vezes que esta dinâmica provoca um efeito boomerang. Concomitantemente, esta equação perversa vai colocando os jornalistas em posições de fragilidade, como ainda recentemente se viu com um caso que aconteceu num diário de referência.
É uma espécie de sistema que se retroalimenta, deixando de fora o interesse do leitor.
O jornalismo cultural é outra das áreas completamente descredibilizada, dominada por feudos. Alguns jornalistas, totalmente instalados, escrevem para eles próprios e para alguns “amigos”.
Há bastante tempo um destacado “opinion maker” neste burgo dizia, com bastante razão, que em Portugal não existia verdadeira crítica literária, precisamente porque todo esse trabalho jornalístico é regido por “interesses” e alinhamentos que desvirtuam por completo a missão de informar objectivamente.
Aliás, não deixa de ser curioso quando são jornalistas a confidenciar a este autor o seu descontentamento com a abordagem editorial da cultura do seu próprio jornal.
Neste mesmo registo é igualmente esclarecedor ouvir jornalistas a lamentarem as opções editoriais dos seus jornais. Mais, é muito elucidativo perceber de que forma, por exemplo na área económica, se faz sentir a pressão dos chamados “interesses económicos”, muitas das vezes de forma dissimulada
Basta ler diariamente o jornalismo económico e facilmente se estabelece uma relação entre as empresas “protegidas” e o peso das mesmas na compra de “espaço” publicitário nos meios. Nalguns casos é uma raridade encontrar-se uma notícia negativa sobre uma dessas empresas ou grupos financeiros, apesar de haver muitos casos a noticiar. Neste capítulo, a blogosfera e as redes sociais vieram servir de escapatória perante o silêncio ou a conivência do jornalismo.
Quanto à sociedade, o jornalismo praticado é de um primitivismo e de uma infantilidade inaceitáveis. Nalguns casos chega a ser patética a forma estridente com que alguns e algumas jornalistas se apresentam em televisão. Aqui, tal como nos jornais e nas revistas, são as “modas” do momento que imperam, havendo pouca criatividade e sensibilidade para temas novos. Chega a ser ridículo como, por exemplo, as ditas “news magazines” repetem anualmente dezenas de temas (as melhores praias, os melhores locais para comer, as melhores formas para poupar, as melhores formas para ser feliz e por diante) e ao mesmo tempo rejeitam ideias e propostas inovadoras do interesse do leitor.
Perante tudo isto (e muito mais) o povo, na sua sabedoria, reagiu e deixou de comprar jornais (ainda antes da “crise”) e passou a olhar com desprezo para a informação televisiva. É o mercado a funcionar. Mau produto não vende. E mesmo em termos proporcionais, a actual circulação dos jornais diários de referência assume contornos ridículos (refira-se que noutros países existem títulos a subir de circulação ou pelo menos a manter).
Para concluir é importante referir que este texto é apenas um exercício teórico e generalista, porque naturalmente existem casos particulares de bons jornalistas (incluindo editores e directores), assim como de excelente jornalismo em Portugal. "
Fonte: http://piar.blogs.sapo.pt/374287.html
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2014.03.20 20:21 allex2501 A quebra de um banco abala o sistema alternativo Bitcoin, mas as apostas persistem. Por Carlos Drummond

O fechamento do Flexcoin, principal banco de transações com bitcoins, assustou até os mais entusiasmados usuários dessa moeda virtual criada há quatro anos. A cotação caiu de 3,6 mil reais, registrados no fim de dezembro, para 1,6 mil reais, segundo o site TradingView.com. O total de estabelecimentos brasileiros de pequeno porte que aceitam pagamento em bitcoins, entre bares, oficinas e pousadas, caiu de 30 para menos de 10, em poucos dias.
Importantes para a captação de recursos por organizações como o site WikiLeaks, de divulgação de informações sigilosas, bloqueado pelas empresas de cartões de crédito, as transações com bitcoins ocorrem em um sistema de caixa eletrônico ponto a ponto, protegido por criptografia. Os atrativos, de acordo com os seus usuários, são a ausência de taxas, impostos, regulação e fiscalização pelos bancos centrais dos Estados nacionais.
Há, no entanto, um problema: os usuários de bitcoins não têm a quem recorrer em caso de quebra de participantes das transações. Na crise de 2008, os bancos centrais socorreram o Lehman Brothers e dezenas de outras instituições financeiras, com farto suprimento de dinheiro proveniente de impostos. Sem os BCs, rejeitados pela comunidade usuária de bitcoins, o mundo provavelmente teria afundado em uma crise pior do que aquela da Grande Depressão dos anos 1930.
O que provocou o fechamento do Flexcoin foi o roubo, por hackers, de 896 bitcoins, equivalentes a 365 mil libras esterlinas. “Como não temos reservas, ativos ou outro meio para superar essa perda, fechamos as nossas portas imediatamente”, dizia o comunicado exibido na primeira página do site. O encerramento aconteceu menos de dois meses depois do colapso do MtGox, principal site de transações do segmento, após o desvio de 740 mil bitcoins, ao que tudo indica em consequência de um golpe aplicado pelos seus donos.
Em novembro de 2013, um artigo publicado no site Generation21stCentury previa que o bitcoin criaria uma nova classe de milionários. O texto destacava as propriedades deflacionárias da moeda da internet, “algo nunca visto antes na história da humanidade”.
Críticos do bitcoin o comparam a uma bolha, ou a um esquema de pirâmide, em que os últimos a entrar no circuito sofrem todas as perdas. Os seus defensores estão certos de que percorrerá a mesma trajetória sinuosa e bem-sucedida de gigantes da internet e dos negócios como Facebook e Twitter.
Algumas iniciativas contribuíram para formar uma aura de segurança em torno do novo meio de pagamento. Em maio de 2013, o Bank of America passou a acompanhar o bitcoin, para efeito de análise de investimentos. Em novembro, o ex-presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, Ben Bernanke, em depoimento ao Senado, disse que embora as moedas virtuais apresentem riscos de uso para lavagem de dinheiro e outros desvirtuamentos, há também áreas em que podem acenar com promessas no longo prazo.
Os riscos apontados por Bernanke mostraram-se palpáveis quando os governos da China e da Tailândia vetaram o bitcoin depois da sua utilização na Silk Road ou Rota da Seda, um domínio na internet voltado à comercialização de drogas e de armas.
A proposta inovadora e, para alguns, libertária, não para de sofrer revezes. O site de leilões eBay do Reino Unido baniu as vendas de bitcoins e o sistema de pagamentos PayPal declarou que as transações nessa moeda não são convertidas pelo seu programa de proteção por considerá-la um “bem intangível”. A Autoridade Bancária Europeia disse que os consumidores deveriam estar atentos aos riscos implícitos nas transações com esse instrumento de pagamento. Paul Krugman, Prêmio Nobel de economia e colaborador de CartaCapital, chamou o bitcoin de “sonho impossível” e considerou-o “perverso”.
Um instrumento recente para enfrentar a onda de eventos negativos para o novo mercado é o Bitcoin Center, criado em dezembro ao lado da Bolsa de Nova York, com pregões diários que pretendem gerar um clima de maior segurança para as transações. A ironia é obter esse efeito com uma simulação do arcabouço institucional que os adeptos da moeda tanto execram.
As contradições do bitcoin parecem bem resumidas por Wolfgang Münchau, especialista em economia da União Europeia e colunista do Financial Times: “O grau em que os economistas têm ignorado o bitcoin só é superado pela extensão em que os seus entusiastas têm ignorado a economia”. O economista, porém, não fecha a questão: “Se a instabilidade global persistir, produzirá mais crises. Se o bitcoin ou seus sucessores darão certo é impossível prever. Mas o ambiente favorece o florescimento de um sistema alternativo descentralizado”.
Fonte CARTA CAPITAL
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2013.11.21 22:20 allex2501 A rede antissocial dos 'bitcoins' Paul Krugman

A oscilação exagerada do "bitcoin" pode não ter sido a notícia econômica mais importante das últimas semanas, mas foi a mais divertida, com certeza. Num período de menos de duas semanas, o preço da chamada "moeda digital" mais que triplicou. Em seguida, caiu mais de 50% em poucas horas. De repente pareceu que tínhamos voltado à era ponto.com.
O significado econômico dessa montanha-russa foi basicamente nenhum. Mas o furor em torno do "bitcoin" serviu de lição útil sobre como as pessoas têm concepções equivocadas em relação ao dinheiro, e, em especial, sobre como se deixam enganar devido a seu desejo de divorciar o valor do dinheiro da sociedade à qual o dinheiro serve.
O que é um "bitcoin"? Às vezes é descrito como uma maneira de realizar transações online --mas isso, por si só, não constituiria novidade num mundo de transações online com cartões de crédito e PayPal. Na realidade, o Departamento de Comércio dos EUA estima que até 2010, cerca de 16% das vendas totais efetuadas nos EUA já eram feitas no comércio eletrônico.
Então de que maneira o "bitcoin" é diferente? Diferentemente das transações com cartão de crédito, que deixam um rastro digital, as transações com "bitcoin" são criadas para serem anônimas e impossíveis de ser rastreadas. Quando você transfere "bitcoins" a alguém, é como se tivesse ido a uma viela escura e entregado a alguém um saco de papel com cédulas de US$100. E, dito e feito: pelo que é possível saber, tirando seu uso como alvo de especulação, a principal utilização feita do "bitcoin" até agora vem sendo para versões online daquelas transações em ruelas escuras, com "bitcoins" sendo trocados por drogas e outros produtos ilegais.
Mas os defensores do "bitcoin" insistem que este faz muito mais do que facilitar a realização de transações ilícitas. Os maiores investidores declarados em "bitcoin" são os irmãos Winklevoss, gêmeos ricos que moveram uma ação bem-sucedida para reivindicar uma parcela do Facebook e foram celebrizados pelo filme "A Rede Social". E eles defendem o produto digital em termos semelhantes aos usados por defensores do ouro quando falam de seu metal favorito. Tyler Winklevoss declarou recentemente: "Optamos por investir nosso dinheiro e nossa confiança num quadro matemático que é imune à política e ao erro humano".
A semelhança com o discurso dos defensores do ouro não é coincidência, já que os entusiastas do ouro e dos "bitcoins" tendem a compartilhar uma posição política libertária e a crença de que os governos abusam profundamente de seu poder de imprimir dinheiro. Ao mesmo tempo, é muito peculiar, já que os "bitcoins" são, em certo sentido, o máximo possível em matéria de moeda fiduciária, com valor que não é baseado em nada concreto.
O valor do ouro vem em parte do fato de esse metal ter utilizações não monetárias, como em obturações dentárias e na fabricação de joias; as moedas de papel têm valor porque são garantidas pelo poder do Estado, que as define como moeda legal e as aceita no pagamento de impostos. No caso dos "bitcoins", seu valor, quando existe algum, se deve puramente à crença de que outras pessoas os aceitarão como forma de pagamento.
Mas deixemos essa característica estranha de lado, além do processo peculiar de "garimpagem" empregado para fazer crescer o montante de "bitcoins" --na realidade, um processo de cálculo complexo. Foquemos, ao invés disso, duas grandes ideias equivocadas --uma delas prática, outra de cunho filosófico-- que são subjacentes tanto à crença no valor fundamental do ouro quanto na aposta nos "bitcoins".
O equívoco prático em questão --e é grande-- é a ideia de que vivemos numa era marcada pela impressão altamente irresponsável de dinheiro, em que a inflação galopante estaria prestes a chegar. É verdade que o Federal Reserve e outros bancos centrais ampliaram suas folhas de balanço em muitos, mas o fizeram explicitamente, como medida temporária em resposta à crise econômica.
Eu sei que se diz que não é possível confiar em autoridades governamentais e tudo o mais, mas a verdade é que as promessas de Ben Bernanke de que suas ações não terão consequências inflacionárias vêm sendo cumpridas ano após ano, enquanto as previsões agourentas de inflação feitas pelos partidários do ouro insistem em não se concretizar.
Mas me parece que o equívoco filosófico é ainda maior. Tanto os partidários do ouro quanto os dos "bitcoins" parecem ansiar por um padrão monetário puro, que seja intocado pelas fragilidades humanas.
Mas esse é um sonho impossível. Como Paul Samuelson declarou certa vez, o dinheiro é um "expediente social", não algo que exista fora da sociedade. Mesmo quando as pessoas usavam moedas de ouro e prata, a utilidade dessas moedas não estava nos metais preciosos que continham, mas na expectativa de que outras pessoas as aceitariam como forma de pagamento.
Na realidade, poderíamos imaginar que os irmãos Winklevoss entendessem esse fato, já que, de certo modo, o dinheiro é como uma rede social: algo útil apenas na medida em que outras pessoas o utilizam. Mas acho que algumas pessoas simplesmente se incomodam com a noção de que o dinheiro é uma coisa humana e querem os benefícios da rede monetária sem a parte social dela. Lamento --isso é impossível.
Será que precisamos de um novo tipo de dinheiro, então? Acho que esse argumento poderia ser apresentado se o dinheiro que temos estivesse apresentando problemas de funcionamento. Mas não está. Temos problemas econômicos enormes, mas as folhinhas de papel verde estão funcionando muito bem. Não deveríamos mexer com elas.
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.
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